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Água, comida e renda no semi-árido Edição 2

 

Peixes e plantas resolvem o problema dos resíduos da dessalinização da água no sertão

A caatinga retratada por Graciliano Ramos em

O sistema é simples: a água potável do dessalinizador vai para uma caixa d´água que abastece a comunidade, e a água residual vai para dois tanques onde é feita a criação de tilápia rosa, um peixe resistente que gosta de águas com alto conteúdo mineral. Ao lado desses tanques há um terceiro, para onde vai a água já servida pelos peixes, rica em minerais e em matéria orgânica. Essa água, com grande potencial de poluição, é usada para irrigar uma área plantada com ervasal, um arbusto forrageiro de origem australiana que gosta de sal e serve como complemento alimentar para ovelhas e cabras criadas na região.

No início, o sistema foi recebido com ressalvas pela população. "Já prometeram muita coisa, a gente aprende a desconfiar", diz Netinha, sertaneja orgulhosa da vida que construiu no assentamento de Caatinga Grande. "Agora é diferente, já tem resultado", diz ela apontando os peixes que saltam no tanque cheio de água salobra. Cícero Martins da Costa, mais conhecido como "Pai dos Peixes", é um dos responsáveis pelo cuidado cotidiano da criação de peixes. "Demorou para acreditar nessa história, mas agora os peixes estão gordos e vai dar uma boa pesca", conta. A expectativa é de 800 quilos de tilápia rosa, que poderão ser vendidos ou consumidos pela comunidade. Os peixes são pescados quatro vezes por ano.

João Bosco Senra, secretário de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, acredita que em pouco tempo essa tecnologia poderá ser utilizada em muitos dos dois mil poços já existentes no semi-árido, região que vai do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, ao Ceará. Somente com a comunidade assumindo a responsabilidade pela implantação e manutenção dos equipamentos será possível mantê-los sempre operacionais, prevê Senra. "Não tem sentido precisar de técnicos que vêm da capital para consertar bombas e trocar filtros", ressalta.

Vidas Secas, onde o sertanejo é derrotado pela natureza dura, expulso da terra pela impossibilidade de um futuro, não é mais a realidade em um pequeno pedaço do Sertão do Seridó, no Rio Grande do Norte. Caatinga Grande, um assentamento da reforma agrária feito em 1989, a quase 300 km de Natal, é um modelo de desenvolvimento que serve como vitrine para tecnologias inovadoras, e ao mesmo tempo simples, de desenvolvimento social e econômico - o Programa Água Doce.


 Sem luxo e com dignidade, a comunidade de Caatinga Grande foi escolhida para testar o programa. Dona de um dos milhares de poços de água salobra cavados pelo sertão nordestino, a comunidade tem um dessalinizador que produz dez litros de água potável por dia para cada um de seus 355 habitantes. Isso é o suficiente para o consumo e para cozinhar. Água para outros fins não precisa ser potável. No entanto, a tecnologia de dessalinização gera um resíduo muito inconveniente: "Para cada litro de água potável temos um litro de água saturada em sais", explica Odilon Juvino de Araújo, técnico da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária (Embrapa) que atua na comunidade. Essa água salinizada, quando descartada no solo, contamina a terra e mata as plantas. O desafio sobre o que fazer com esse resíduo foi levado à Embrapa. "Viemos para resolver um problema ambiental", explica Araújo, "e acabamos criando um círculo virtuoso com o dessalinizador".


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