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Sede de vender Edição 9

 

Mercado brasileiro cresceu 26,67% entre 2003 e 2007 impulsionado pelas vendas de produtos aromatizados
Por Marleine Cohen

Boas notícias para o mercado de águas minerais brasileiro: o segmento, que cresceu 26,67% entre 2003 e 2007, deve registrar, segundo estimativas da Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais (Abinam), um de seus melhores desempenhos no próximo verão e vender 30% a 40% mais do que no mesmo período dano passado. Para puxar as vendas, o mesmo cardápio de sempre: férias, carnaval, turismo em alta e muito calor. Acrescente-se a isso o baixo nível dos reservatórios e a receita está garantida.

Num país como o Brasil, onde estão concentrados nada menos que 30% dos recursos mundiais de água mineral, e em grandes centros urbanos como São Paulo, onde a água encanada é reconhecidamente de qualidade, como explicar o crescimento das vendas do produto industrializado?

Duas explicações: trata-se de uma questão cultural, e de comodidade. Como reconhece o próprio gerente do departamento de Controle da Qualidade dos Produtos Água e Esgotos da Sabesp, André Luis Góis Rodrigues, em São Paulo, por exemplo, a água encanada é boa para consumo e não é: "A Sabesp oferece água de qualidade para toda a população. Entretanto, o serviço é garantido até a chegada da água ao cavalete dos imóveis, ou seja, até a estrutura que abriga o hidrômetro. Do cavalete até as torneiras internas dos imóveis, podem ocorrer situações que comprometem a qualidade da água, fugindo do alcance da Sabesp. Isso porque o responsável pelo imóvel tem de zelar pela manutenção e conservação da tubulação, além da limpeza da caixa d´água, para que o produto não sofra interferências capazes de comprometer sua qualidade.

Na dúvida, ponto a favor da indústria de água mineral: "Mesmo nos países onde a água da rede pública é de boa qualidade, como no Brasil, o mercado de água envasada continua em grande ascensão porque é de conhecimento público que, por mais que ela seja adequadamente potável, vem de mananciais poluídos e precisa passar por uma série de tratamentos químicos para ganhar qualidade e segurança. Este tratamento acaba deixando cheiro de cloro, especialmente, e um sabor que os consumidores rejeitam. Daí a preferência por água mineral, seja apenas para hidratação, para cozinhar ou para fazer a mamadeira do bebê. Certamente é uma questão cultural, pois quando os consumidores passam a ter discernimento sobre essas diferenças e mudam para a água mineral, eles jamais voltam a consumir água de torneira", endossa Carlos Alberto Lancia, presidente da Abinam.

Segundo Lancia, há outro fator que contribuiu muito para o boom das vendas: "Leve-se em conta que a água mineral em embalagens de 20 litros é a única alternativa de consumo em regiões onde há carência de água potável ou em áreas sujeitas a inundações ou, ainda, onde a precariedade de encanamentos e caixas d'água torna o produto não potável".

De fato, o lançamento do garrafão de vidro de 20 litros - inicialmente pela Indaiá do Distrito Federal -, em 1968, deu novo alento à produção de água engarrafada nacional, que até então se mantinha estável. A embalagem permitiu conquistar um novo consumidor, as empresas, e o produto industrializado fez sua estréia em lojas, escritórios e fábricas.

Em 1970, outra novidade: a garrafinha plástica de polietileno de baixa densidade (PEBD), que passou a facilitar o transporte e o manuseio do produto pelo consumidor final.Em meados daquela mesma década, o ritmo de crescimento do setor ganhou mais velocidade com a produção do garrafão de policarbonato e a viabilização de diversos produtos em PVC, PET e outros. Desde então, a indústria engarrafadora brasileira produz mais do que água mineral: um diferencial agregado, a adequação embalagem/produto.

Novamente em xeque, desta vez por causa da rotulagem "água funcional", a água industrializada, aromatizada ou vitaminada, se vê às voltas com o estigma de não ser mais "natural": afinal, qual a diferença entre beber água pura acrescida de um suco de frutas em casa ou uma água industrialmente saborizada com limão ou tangerina?

O argumento das empresas é que o produto funcional ajuda a reforçar o hábito de beber água e substituir os refrigerantes à mesa. Além disso, estimula a chamada hidratação enriquecida, obedecendo premissa que se baseiam em recentes descobertas, notadamente aquelas da Universidade de Houston, Estados Unidos, que dão conta que a hidratação se processa pelo consumo de qualquer líquido e que seus efeitos são cerca de 48% mais benéficos quando a ingestão é feita com prazer.

Existe, porém, um novo dado - ou um velho problema - que responde por parte significativa da excelente performance do setor: a entrada no mercado de novos fornecedores dispostos a tirar proveito do fato de o brasileiro não ter hábito de beber água da torneira e lhe oferecer um novo produto já consolidado no exterior: a água mineral aromatizada, vitaminada ou com teor de sais minerais modificado. Em suma, uma água turbinada, além de pura, e infinitamente mais confiável, portanto, que o produto canalizado. 
A aceitação do novo conceito, introduzido no mercado interno a partir de 2006, é crescente por conta do apelo das grandes marcas: a Danone, por exemplo, que comercializa água mineral natural nos cinco continentes, em especial as famosas Evian, Aqua e Volvic, e lidera o ranking em vários países, fez sua estréia no Brasil com a Bonafont, uma água sem gás e com baixíssimo teor de sódio que também ajuda a eliminar o mineral presente no organismo. "O consumo de água pelos brasileiros ainda é muito baixo. Cada indivíduo ingere cerca de 120 ml por dia, quando a quantidade diária recomendada é de 1.500 ml", diz Gustavo Valle, presidente da Danone do Brasil. Ele lembra que o Brasil é o 5º maior mercado consumidor de bebidas em todo o mundo e que tem um grande potencial de crescimento, especialmente no segmento de águas minerais. "Para atingir esse negócio promissor, buscamos trazer um produto diferenciado que deverá transformar o cenário da categoria água no Brasil."

No início desse verão, a Nestlé do Brasil, proprietária da Minalba, anunciou a compra das fontes da Água Mineral Santa Bárbara, em Águas de Santa Bárbara, no interior paulista. Antes mesmo de submeter o negócio à aprovação da autoridade de defesa da concorrência, a Nestlé anunciou investimento de R$ 100 milhões, nos próximos cinco anos, na ampliação e modernização  das linhas de produção e de embalagem.
Na mesma prateleira das águas produzidas pela Nestlé e Danone, e ao lado da Cristal, fabricada pela Coca-Cola - líder de vendas no mercado paulista - encontra-se outro produto em destaque, a H2OH!, da Pepsi, uma água saborizada também recém-lançada que, em menos de sete meses, desbancou até mesmo o carro-chefe da marca, o refrigerante Pepsi-Cola. Para conter o avanço da principal concorrente, a Coca-Cola, por sua vez, contra-atacou com a Aquarius Fresh, disponível nas versões Lemon e Orange.

A briga entre as duas multinacionais dá o tom da acirrada concorrência que ganhou forma no setor, a ponto de Christian Majczak, consultor da Go4 Consultoria de Negócios, prever grande crescimento do consumo de águas saborizadas não só no Brasil como no mundo todo. Na Argentina, onde o conceito foi introduzido há alguns anos, elas já correspondem a cerca de 25% de toda água envasada; na Europa, essa porcentagem chega a perto de 30%. Apesar de retardatário, o Brasil já conta com pelo menos uma dezena de marcas regionais: a Water Plus C, da Via Natural; a Aquafibra, da Lindóia; a Water First One, do Grupo Tatuzinho, entre outras.

O novo produto tem um apelo conceitual inovador: beber água é um hábito saudável que vai além da necessidade de matar a sede, pois o que era insípido ganhou sabor e o que era inodoro foi acrescido de uma fragrância frutada. A AcquaFibra, por exemplo, contém fibras que ajudam a regular as taxas de açúcar no sangue; a WaterPlus, zinco e ácido fólico, que fortalecem o sistema imunológico.
Na França, produtos que ainda não chegaram ao Brasil, como a Affinex Concentré Minceur, do laboratório Pierre Fabre, têm na sua formulação uma mistura de água mineral, frutas vermelhas e extratos de plantas, entre as quais o guaraná, para evitar a retenção de líquidos, tonificar o organismo e delinear melhor a silhueta.

Mais do que a tradicional composição química, as águas funcionais, como estão sendo chamadas, estão se beneficiando da preocupação mundial em torno da alimentação e qualidade de vida e propõem uma nova fórmula acrescida de uma promessa tentadora: cuidar da saúde do consumidor. Não há como não ceder!
Segundo Carlos Alberto Lancia, presidente da Abinam, entre os vários motivos para justificar que a água mineral seja a categoria de bebida de maior crescimento no mundo está justamente "o fato de ela ter, antes de mais nada, um atávico conceito de qualidade e de benefícios à saúde".

"Antes do advento da penicilina e de outros avanços da medicina, a crenologia (cura pelas águas minerais) era uma prática comum no mundo, desde a Grécia antiga e o Império Romano. Mas o que fez explodir o mercado de águas minerais foi o advento da embalagem PET, que viabilizou a presença e o consumo de água em todos os lugares e em todas as ocasiões. A esse fator, acresce-se a atual preocupação do consumidor com sua saúde e o conseqüente consumo de produtos naturais e saudáveis, sem açúcar, adoçantes ou quaisquer outros aditivos. Assim, a água, por ser um produto natural, rico em sais minerais e envasado tal como sai da natureza, tornou-se o produto em maior coerência com os valores de consumo deste século", explica Lancia.



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