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Em busca de uma gestão sustentável Edição 1

 

A indústria é responsável pela utilização de 25% do consumo de água em todo o mundo
Por Maura Campanili

A primeira fonte de energia industrial foi a roda d'água; o primeiro meio de escoamento da produção foram as vias navegáveis. É por isso que, desde seus primórdios, as fábricas se instalam às margens dos rios. Essa relação de dependência do setor industrial com os recursos hídricos persiste até hoje. A quantidade e a qualidade da água em uma região determinam sua vocação, ou não, para um parque industrial.

Responsável por cerca de 25% do consumo de água no mundo (e 18% da água consumida no Brasil), o setor industrial ainda carrega o fardo de ser o maior responsável pela poluição dos mananciais, já que seus resíduos, diferentemente do esgoto doméstico, em muitos casos, contêm substâncias químicas persistentes e difíceis de serem depuradas naturalmente ou tratadas depois de atingirem os corpos d'água. Por outro lado, é o setor que produz a maior renda por volume de água utilizada e o maior responsável pelo consumo de água nos países desenvolvidos. No Brasil, o maior volume de água ainda é utilizado na irrigação (46%).

Se aumentar, proporcionalmente, o consumo industrial, é vantajoso. Isso não significa usar cada vez maiores volumes de água. Em sua dissertação de mestrado, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), onde analisa os reflexos da gestão de recursos hídricos sobre o setor industrial paulista, a engenheira hidráulica Anícia Pio defende que a tendência mundial é a otimização do uso da água, por meio de tecnologias que aumentem a eficiência e pesquisas que permitam saber exatamente para o quê e em que quantidade se precisa da água para as necessidades humanas.

A pesquisadora mostra que a relação entre consumo de água e bem-estar econômico não é permanente e fixa e, nos países desenvolvidos, já começa a ser alterada. Nos Estados Unidos, por exemplo, até 1980, a relação entre o PIB e o volume total de água captado se manteve na mesma proporcionalidade. Houve uma ruptura em 1980: enquanto o PIB continuou crescendo, os volumes de água captados se estabilizaram. O mesmo processo pode ser verificado no Japão, onde, em 1965, utilizavam-se cerca de 50 milhões de litros de água para se produzir um milhão de dólares do PIB nacional e, em 1989, utilizavam-se apenas 13 milhões de litros para a mesma produção.

No Brasil, a distribuição irregular, o crescimento da demanda e a degradação do recurso fazem com que todos os setores usuários tenham de buscar a sustentabilidade, por meio da racionalização e da boa gestão da água. Para Félix Domingues, coordenador-geral da Agência Nacional de Águas (ANA), no entanto, "o uso eficiente ainda é pouco praticado no país e, no geral, os esforços ainda são restritos".

Os melhores resultados, conforme a engenheira Anícia Pio, estão centralizados nas grandes indústrias hidrointensivas (como papel e celulose, têxtil e de bebidas) e multinacionais, que atualmente têm mais dificuldade de cumprir as metas ambientais estabelecidas pelas matrizes do que a legislação brasileira. Ela comenta: "O grande desafio é estimular a pesquisa científica e econômica para fazer com que pequenas e microempresas atendam a bons padrões de qualidade. Exigir muito, contudo, leva à clandestinidade".

Mudança de paradigma
A industrialização brasileira começou no início do século passado, sem nenhuma preocupação com a quantidade de água captada ou com os efluentes. Essa postura, aliada à intensa urbanização que se seguiu, propiciada em boa parte pela presença das indústrias, resultou em altos índices de poluição. Em algumas bacias hidrográficas, a água se tornou imprópria até para o uso industrial, obrigando muitas fábricas a implantar sistemas de tratamento da água captada para poder utilizá-la, como no Alto Tietê, na região metropolitana de São Paulo.



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