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O risco da escassez Edição 10

 

Estudo da Cobrape avalia a oferta futura de água para atender demanda de três regiões metropolitanas no Estado de São Paulo
Por Marleine Cohen


Com 28 milhões de habitantes, a macrometrópole paulista, área que agrega as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas e Baixada Santista, tem atualmente capacidade para produzir 67 metros cúbicos de água por segundo e distribuir cerca de 65 m³/s. Uma projeção do crescimento da população da RMSP, contida em estudo desenvolvido pela Fundação Estadual de Análise de Dados (Seade) para a Sabesp, estima ser necessário um aporte de vazão anual adicional de cerca de 500 l/s no horizonte de 2025.

O risco de escassez na oferta de água potável para atender à demanda num futuro próximo já acionou o alarme na Secretaria de Saneamento e Energia de São Paulo, a ponto de o crescimento industrial da região - responsável por mais de 20% do PIB nacional - estar sendo questionado por conta do abastecimento precário. Providência: em novembro último, para garantir a demanda, o Estado encomendou um amplo estudo de identificação de novos mananciais. Segundo Rui Brasil, assessor de gabinete da Secretaria de Saneamento, "o Plano Diretor de Aproveitamento dos Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista tem por objetivo apreciar a viabilidade técnica, institucional e ambiental das fontes d´água disponíveis na região e traçar um modelo de desenvolvimento".

O prazo de execução desse projeto de esquadrinhamento, a cargo da Companhia Brasileira de Projetos e Empreendimentos (Cobrape), é de 11 meses e o investimento em planejamento está custando R$ 2,98 milhões aos cofres do Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE). Mas o check-up, garante Brasil, permitirá fazer uma avaliação segura da situação atual e futura, da disponibilidade e demanda dos múltiplos usos dos recursos hídricos, dos conflitos existentes e potenciais e das alternativas para resolvê-los à luz do aproveitamento integrado das bacias envolvidas, nos próximos anos.

O plano geral de aproveitamento dos recursos hídricos para a macrometrópole paulista deverá contemplar o horizonte do ano 2025, mas a intenção do governo é aumentar em 10 m³/s a produção de água mediante injeção de recursos já a partir de 2010. Serão necessários pelo menos cinco anos para concluir as obras. Até lá, a pressão maior da demanda, decorrente do crescimento populacional e estimada em torno de 0,5 m³/s por ano, deve ser suprida por duas obras: a ampliação da estação de tratamento de água de Taiaçupeba, na Bacia do Alto Tietê, em execução por meio de convênio entre o DAEE e a Sabesp, que vai acrescentar 5 m³/s ao sistema; trabalhos de reversão no rio Juquiá, que permitirão aporte de mais 4 m³/s de água no Sistema Produtor São Lourenço, ao sul da Grande São Paulo. Uma vez concluídas estas duas obras e integradas as novas fontes de água à rede de abastecimento existente, as alternativas imediatas para a região estão esgotadas.

Contemplada por sucessivos planos de gerenciamento de recursos hídricos incluídos na agenda governamental a partir da segunda metade dos anos 1960, quando foi proposto o pioneiro Plano Hibrace, a macrometrópole paulista não tem crescimento econômico uniforme - e, portanto, demanda ou oferta de água equânime. Ao longo do eixo da rodovia Castelo Branco e do sistema Anhanguera-Bandeirantes, respectivamente no entorno dos municípios de Sorocaba e Jundiaí, por exemplo, apresenta nós de desenvolvimento em função da falta d´água. Em contrapartida, de parte a parte da Fernão Dias, onde se localiza a região bragantina, e da rodovia Presidente Dutra, entre Jacareí e Taubaté, os bons ventos da economia demandam mais recursos hídricos.
Para os 28 milhões de habitantes que se concentram na macrometrópole - dos quais cerca de 20 milhões só na RMSP -, a demanda d´água, de acordo com o assessor de gabinete, consiste em 68 m³/s para uso público e 12 m³/s para uso industrial e agrícola.

Ocorre que todos os municípios compreendidos na bacia dos rios Piracicaba e Jundiaí, ainda segundo Brasil, captam água nos rios locais, no fio d´água - "e assim está previsto até 2020". Cursos como o do Camanducaia ou o Jaguari ou, ainda, a bacia do Atibaia suprem as necessidades de 4,5 milhões de habitantes.
A estratégia que norteia o novo plano encomendado pela Secretaria de Abastecimento visa, portanto, localizar e aproveitar as fontes que não podem abastecer diretamente a Grande São Paulo, mas serviriam para suprir a própria vizinhança.

Segundo Rui Brasil, o abastecimento atualmente garantido pela Sabesp provém de oito sistemas produtores: o Cantareira, com cinco reservatórios que fornecem até 35 m³/s ou 46,8% da produção global; o Guarapiranga/Taquacetuba, com vazão de 13,8 m³/s ou o correspondente a 21,1% da oferta total; o Alto-Tietê, composto de cinco reservatórios, cuja produção, de 10,4 m³/s, equivale a 16% do abastecimento de água; o Rio Grande, situado num braço da represa Billings e responsável pelo suprimento da região do ABC, com 4,8 m³/s ou 7,3% do total; o Rio Claro, com vazão de 3.8 m³/s ou 5,8% da produção integral; o Alto e Baixo Cotia, localizado a oeste de São Paulo, que produz 1 m³/s (3%), e, por último, o ribeirão Estiva, com participação inferior a 0,1%.

O mapeamento prévio incluiu oito novas fontes, algumas com "custos mais convidativos", segundo o assessor, muito embora essa avaliação financeira não tenha sido concluída. Algumas apresentam problemas técnicos de grande monta ou entraves institucionais, como, por exemplo, a reversão dos reservatórios Santa Branca e Paraibuna, nas proximidades da nascente do rio Tietê, e a transposição das águas da represa do Jaguari, perto de Jacareí, na cabeceira do rio Paraíba, ambas para o sistema do Alto-Tietê.

Na mesma região, o aproveitamento de dois rios de vertente marítima - o Itatinga e o Itapanhaú -, com reversão para o Alto Tietê, enfrenta impasse ambiental: estão localizados na Serra do Mar. Já a disponibilidade hídrica da bacia do rio Ribeira do Iguape está limitada por problemas técnicos.
Outras quatro alternativas, menos interessantes, segundo Rui Brasil, foram identificadas pelos técnicos que se debruçaram sobre o mapa hídrico paulista. Uma delas é a represa de Jurumirim, no rio Paranapanema, com vazão suficiente e águas de qualidade. Também foram identificadas dificuldades para a utilização do reservatório de Barra Bonita, que se presta atualmente à geração de energia da AES Tietê. Também não está descartada a captação de água do aquifero Guarani.

De acordo com Rui Brasil, "até julho próximo as alternativas já estarão esboçadas. A partir de então, está prevista uma agenda de seis seminários públicos com comitês de bacias, ambientalistas, políticos e técnicos. "Não queremos apenas prover a demanda projetada", explica o assessor. "Hoje, para gerir a demanda, fazemos uma segunda conta: quanto consigo reduzir em perdas de abastecimento, quanto ganho com o uso racional e o reúso da água e, principalmente, quanto gasto para trazer água de longe, uma vez que o sistema adutor atual não tem a abrangência geográfica necessária?"
Segundo dados oficiais, entre 2000 e 2008 foram investidos R$ 120 milhões por ano no com-bate a vazamentos.

O programa de redução de perdas na distribuição conseguiu diminuir a quantidade de água distribuída em 4,3 m³/s, volume suficiente para abastecer 2 milhões de pessoas por dia. Atualmente, estima-se que 28% da produção da Sabesp seja desperdiçada. Para o ano, a meta é limitar as perdas a 25% e, em 2019, a 14%.



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