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Certificado de origem Edição 10

 

Programa desenvolvido pela Suzano promove o projeto de manejo florestal entre pequenos e médios produtores
Por Francisco Bicudo

A conscientização da população sobre os riscos do aquecimento global e as exigências estabelecidas pelo mercado têm obrigado as empresas a desenvolver movimentos cada vez mais evidentes e concretos em direção a práticas econômicas sustentáveis, que não representem apenas discurso vazio ou recurso de propaganda e de fato sejam capazes de preservar o meio ambiente.

Uma das empresas brasileiras atentas a esse cenário é a Suzano Papel e Celulose, referência do setor na América Latina e com atuação em cerca de 80 países, responsável pela produção de cerca de 2,8 milhões de toneladas de papel e celulose, no ano passado. Em 2007, a Suzano conseguiu concluir o processo de certificação de suas áreas florestais próprias, que somam aproximadamente 513 mil hectares e estão localizadas no Estado de São Paulo, sul da Bahia, norte do Espírito Santo e nordeste de Minas Gerais. A certificação, emitida pela FSC (Forest Stewardship Council), organização internacional com  atuação no segmento ambiental, reconhece que a produção de celulose a partir de eucalipto feita pela Suzano respeita os ideais de sustentabilidade.

"Só não foram certificadas áreas mínimas em territórios paulista e mineiro, além de regiões de expansão no Maranhão e no Piauí, onde há árvores que ainda não se encontram em idade produtiva e estão sendo preparadas para o manejo", diz Luciana Papp, coordenadora de certificação de plantações do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), entidade escolhida para acompanhar e fiscalizar todo o processo. Concluída essa etapa, a Suzano esforça-se agora para incentivar a certificação de áreas de plantio que fazem parte do Programa de Fomento Florestal - são várias unidades, em geral pequenas e médias propriedades, pertencentes a produtores independentes, que somam 77 mil hectares e abastecem a cadeia produtiva, representando quase 25% do consumo total de eucalipto da empresa. De acordo com Luiz Cornacchioni, gerente de relações institucionais da Suzano, o projeto é chegar a 2012 com todos os fomentados também certificados pelo FSC.

O executivo sabe que a dinâmica será bem mais complexa que a caminhada que resultou na certificação das áreas florestais próprias. Em São Paulo, são mais de 800 proprietários ligados às áreas de fomento; na Bahia e no Espírito Santo, há cerca de 300 deles. A Suzano auxilia esses pequenos e médios produtores com o fornecimento das mudas de árvores e com a assistência técnica, para depois resgatar a madeira, a preço de mercado. "Estamos falando de áreas menores, dispersas e espalhadas, que seguem lógicas de produção distintas e gestões também diferenciadas", lembra Luciana. "O esforço deve ser redobrado, pois nem sempre os proprietários têm clareza sobre a prática da sustentabilidade", completa Cornacchioni. Ele conta que, em 2008, um projeto piloto envolveu três desses produtores, totalizando cinco mil hectares (quase 10% do total ocupado pelos fomentados), com resultados promissores.

Luciana explica que a certificação é um processo voluntário, que depende da vontade e disposição de cada empresa, e não uma obrigação imposta pela legislação. Uma vez tomada a decisão, é definida qual entidade cadastrada ao FSC será responsável pela avaliação - no caso da Suzano, quem cumpriu essa função foi o Imaflora. Auditores e especialistas nas áreas ambiental, social e econômica visitam os locais de produção; além disso, são realizadas consultas públicas envolvendo organizações locais, como sindicatos, entidades de classe, ONGs e prefeituras, produzindo ao final um relatório que é tornado público, por meio da internet. Para obter a certificação, a empresa deve dar conta de dez princípios, observados de maneira absolutamente rigorosa pela certificadora, como o cumprimento da legislação ambiental do país, o uso adequado da terra e um plano de manejo sustentável, o respeito às populações indígenas e aos direitos dos trabalhadores florestais, a preservação da diversidade e dos recursos naturais (fauna e flora), dentre várias outras exigências.

Especificamente em relação aos recursos hídricos, há que se proteger as zonas de mananciais, realizar análises periódicas sobre qualidade das águas, controlar o descarte de resíduos químicos e poluidores, combater a erosão, incentivar práticas de reúso e reaproveitamento, além de garantir as condições adequadas de habitat para a reprodução das diferentes espécies animais e vegetais. Anualmente, a entidade cadastrada pela certificadora faz novas visitas e observações de campo, para fiscalizar se todas as condições impostas estão sendo cumpridas e, se for o caso, até mesmo sugerir ações corretivas. Caso o contrato seja desrespeitado ou as recomendações não sejam seguidas, a empresa pode ser punida, com medidas que variam da advertência à perda do certificado de sustentabilidade, se a infração for considerada grave. Por outro lado, se tudo estiver em ordem, o certificado é renovado a cada cinco anos. "Estamos sob vigilância constante. Não podemos relaxar ou vacilar. Trata-se de um processo permanente, todo ano somos visitados, o que permite melhorar e aperfeiçoar nossas práticas", admite Cornacchioni.

O executivo faz questão de destacar que a certificação não representa um ato isolado, mas significa mais uma estratégia de sustentabilidade desenvolvida pela Suzano. A empresa, acompanhando o debate sobre o aquecimento global, produz anualmente um inventário de emissões que calcula a quantidade de gases despejada por suas fábricas na atmosfera, incentivando outras iniciativas sustentáveis, como a proteção de florestas nativas, que ajudam a reduzir a presença dos gases de efeito estufa. Além disso, participa do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto pelo Protocolo de Kyoto, e comercializa créditos de carbono na bolsa de valores de Chicago. Cornacchioni lembra que "dos 513 mil hectares de florestas pertencentes à Suzano, 195 mil, ou cerca de 40% do total, representam áreas de preservação de matas nativas".

Para Francisco Giovanni David Vieira, que em seu doutorado, defendido na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) analisou as relações entre o setor privado, o terceiro setor e o meio ambiente, há um desejo cada vez mais intenso e explícito das empresas de tornarem-se reconhecidas como ambientalmente sustentáveis, em função de imposições mercadológicas. Segundo Vieira, atualmente professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), em um cenário extremamente competitivo, quem não adota esse diferencial acaba se tornando vulnerável e passível de reveses de diversas naturezas, estabelecidos por legislações restritivas, pela perda de espaço para empresas concorrentes, inclusive no mercado internacional, e pela repulsa dos consumidores internos, com a consequente queda nas vendas.

Movimentos recentes de mer-cado ajudam a ilustrar essa avaliação. Há cinco anos, a Leo Madeiras, principal revenda de madeiras do país, criou a EcoLeo, setor da empresa responsável por comercializar exclusivamente produtos certificados pelo FSC. Os resultados não demoraram a aparecer: em 2008, o crescimento dos negócios nessa divisão foi de 55%, em comparação com 2007. Segundo a pesquisa Nosso Mundo Verde, divulgada pelo instituto britânico Taylor Nelson Sofres (TNS) no ano passado, que ouviu mais de 13 mil pessoas em 17 países, 83% dos 400 brasileiros consultados pelo levantamento estariam dispostos a pagar mais por mercadorias ecologicamente sustentáveis.

Vieira, da UEM, reconhece que há bons projetos e ações sustentáveis incentivadas pela iniciativa privada; no entanto, assume ser cético e diz que infelizmente estas ainda representam uma minoria. Segundo ele, na maior parte das vezes, tais iniciativas estão apenas preocupadas com imagens e associadas ao marketing institucional, em uma tentativa de seduzir a sociedade e obter reconhecimento mercadológico. Ou seja, para ele, há muito falatório, mas poucas propostas concretas. O professor da UEM lamenta inclusive o fato de muitas vezes os gastos com campanhas e com publicidade superarem os investimentos feitos nos próprios projetos supostamente sustentáveis. E destaca que é preciso uma avaliação de longo prazo para confirmar se de fato uma empresa é coerente com o discurso que adota. Nesse sentido, reforça o especialista, o instrumento da certificação é fundamental para separar o joio do trigo e sinalizar e evidenciar para a sociedade quem está mesmo preocupado com o meio ambiente. "Não é uma variável absoluta, mas importantíssima. Os certificados são em geral emitidos por instituições independentes, sérias, que reúnem profissionais competentes e capazes de acompanhar e de fiscalizar os projetos", completa.

No Brasil, já são 69 as áreas florestais certificadas pelo FSC, sendo dez pertencentes a comunidades e 59 a empresas, totalizando quase cinco milhões e meio de hectares. Luciana reforça os significados e os benefícios da certificação e cita um estudo publicado em 2008 pelo Imaflora, pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Entropix Engenharia que aponta os impactos positivos do instrumento em empreendimentos florestais do Sul do país. De acordo com o trabalho, "a certificação FSC está cumprindo seu papel como ferramenta de mercado para provocar mudanças em direção a um manejo florestal sustentável, preservando a fauna, a flora e os recursos hídricos dos ecossistemas naturais e respeitando a saúde, a segurança e a qualidade de vida do trabalhador". Em suas conclusões, o documento sugere "a conscientização do consumidor final sobre a necessidade de expansão do selo da certificação FSC para países em desenvolvimento, para que essa ferramenta possa ampliar e continuar representando um dos fatores da força motriz rumo à sustentabilidade".



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