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Setor sucroalcooleiro caminha em direção à sustentabilidade ambiental Edição 11

 

Por Marleine Cohen

Do patinho feio ao ecologicamente correto. Em pouco menos de duas décadas, a gigante do campo - a indústria sucro-alcooleira, cuja última safra foi responsável pela movimentação de R$ 51 bilhões, geração de 4,5 milhões de empregos diretos e indiretos e produção de 32 milhões de toneladas de açúcar e 27 bilhões de litros de álcool - passou a otimizar o uso da água tanto no campo quanto na usina, gerando substancial economia de recursos hídricos no seu processo produtivo.

Segundo informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, ano passado, as 414 usinas em atividade em todo o país - das quais 15 produzem açúcar; 151, etanol; e 248 são mistas - cortaram 490 milhões de toneladas de cana, o que, em termos de demanda, gerou o consumo de cerca de 490 milhões de m³ de água. Apesar dos números espantosos - principalmente quando se sabe que a canavicultura ocupa 7,7 milhões de hectares, ou 3,5% da área agricultável brasileira -, isto é um alento: dez, 15 anos atrás, era pior, bem pior.

Particularmente favorecida pela natureza, pois se trata de uma lavoura robusta, resistente à estiagem, a cana-de-açúcar praticamente não precisa ser irrigada no Brasil: suas necessidades hídricas, na fase agrícola, são providas pelo regime de chuvas das regiões produtoras, em especial do Centro-Sul. Ainda assim, nos anos 90, os níveis de captação e lançamento de água para o seu processamento industrial batiam na casa dos 5 m³ por tonelada de cana moída.

Um estudo do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) a este respeito consolida a drástica redução do consumo de água na região Centro-Sul ao longo dos últimos anos. De acordo com a pesquisa, em 1990, as usinas precisavam, em média, de 5,6 m³ de água por tonelada de cana produzida. Em 1997, as necessidades foram reduzidas para 5 m³ de água por tonelada e, em 2005, a indústria cavanieira já se contentava com algo em torno de 1,8 m³ de água por tonelada produzida. Segundo um dos responsáveis pelo levantamento do CTC, André Elia Neto, especialista em tecnologia agroindustrial, atualmente, algumas usinas trabalham com 1 m³ de água por tonelada de cana - e às vezes até menos.

Qual a fórmula mágica?

Além do fato de a água ter-se tornado uma commodity como outra qualquer - pela qual, portanto, se paga -, uma feliz convergência de fatores: uma boa dose de tecnologia de ponta¸ particularmente bem-vinda num país alçado à condição de maior produtor mundial de açúcar, à frente da Índia, da Tailândia e da Austrália; um empurrãozinho do poder público, fixando metas especiais de sustentabilidade para parte da região Centro-Sul; mudanças no gerenciamento do negócio e uma nova mentalidade dos usineiros, associada ­inicialmente à diminuição da queima da palha e das pontas da cana-de-açúcar durante a colheita.

Nesse sentido, a primeira revolução no campo, em se tratando da indústria sucroalcooleira, atendeu pelo nome de fertirrigação - aplicação da vinhaça, subproduto da produção do etanol, rica em água e nutrientes orgânicos, no solo.

Segundo Alfred Szwarc, consultor de tecnologia e ambiente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) - organização representativa do setor de açúcar e bioetanol nacional -, a aplicação da vinhaça acabou substituindo a própria água, com a vantagem de a reciclagem devolver ao solo nutrientes como fósforo e potássio e lhe atribuir maior fertilidade, além de outros benefícios agrícolas: "Cada litro de etanol gera 13 litros de vinhaça", calcula Szwarc. "Por causa do seu valor econômico, ela já não é mais despejada nos rios" - e o meio ambiente agradece.

De maneira similar, para otimizar o consumo de recursos hídricos no campo, as novas tecnologias para o setor levam em conta o próprio volume de água inerente à cana. Cada tonelada tem cerca de 700 litros de água, dos quais perto de 150 litros são a umidade que fica retida nela.

Recuperam-se quase 500 litros. Reutilizada, esta água pode ser aproveitada em atividades tradicionais, como na embebição de moenda, na limpeza de piso, no preparo de leite de cal, na reposição em sistemas de lavagem de cana ou de gases da caldeira, costuma explica Vadson Bastos do Carmo, especialista em uso da água na produção de etanol e de cana-de-açúcar.

Assim, também na usina, segunda etapa da fabricação dos dois produtos - que respondem por 1,76 % do PIB nacional, gerando a exportação de 5 bilhões de litros de álcool e 32 milhões de toneladas de açúcar, ou uma receita equivalente a US$ 2,2 bilhões e US$ 9 bilhões, respectivamente, segundo dados recentes da Unica -, colocam-se em prática outras tecnologias de otimização e reutilização dos recursos hídricos, havendo cada vez menos necessidade de se repor água nos processos produtivos.

No chão de fábrica, em termos gerais, esta segunda revolução no setor se apoia na instalação de circuitos fechados de água e sistema de lavagem a vácuo, ou, a grosso modo, na reutilização de água - uma prática que, de acordo com pesquisa do consultor em meio ambiente da Proamb Engenharia, Homero C. Leite, passou de 62,7%, na década de 1990, para 87,8% em 2005.

Lavar a cana-de-açúcar é uma das etapas de produção que mais consomem recursos hídricos: por tonelada, são necessários 5 m³ a 10 m³ de água. Levando-se em conta que algumas usinas chegam a esmagar 40 mil toneladas por dia, tem-se uma ideia do aporte de água por elas utilizado.

Para reduzir o consumo, os especialistas apontam duas alternativas: implantar o circuito fechado de água, que permite o reúso do insumo, ou deixar de lavar a cana.

Na primeira alternativa, estima-se que a economia seja de 90% - o que não é nada desprezível quando se sabe que a atividade consome, segundo Alfred Szwarc, 25% do total de água necessário.

Além de poupar cerca de metade da água usada nas operações de resfriamento - etapa do processo produtivo na qual entram em ação equipamentos como torres de resfriamento, sistemas de resfriamento evaporativo por aspersão e condensadores evaporativos para a geração de vácuo -, o fechamento dos circuitos de águas em usinas mistas resulta que se capte apenas 2% a 3% da quantidade total de água necessária, só para reposição do circuito.

A segunda alternativa, fortemente incentivada uma vez que a lavagem da cana crua com água provoca perda do açúcar, está sendo substituída, segundo Alfred Szwarc, por uma limpeza a seco. "Trata-se de um sistema de sopragem, de baixo para cima, que tira as impurezas e se presta muito bem à função", explica o consultor da Unica.

"As usinas não lavam mais cana", endossa Homero Leite, apontando aumento de 124% na moagem da cana e redução de 25% na água captada entre 1990 e 2007.

Mas, para que seja viável, a lavagem a seco requer a eliminação gradativa da queima da palha da cana, na colheita, para evitar a exsudação e, consequentemente, a possibilidade de a terra grudar no colmo da cana: em suma, um modelo de produção agroecológica.

Em São Paulo, as Usinas São Francisco e Santo Antônio, do Grupo Balbo, espelham essa prática. Ao lado do firme propósito de reduzir o consumo de água, Leontino Balbo Júnior, diretor comercial das usinas, se preocupa com a queima da cana: "A cultura de cana é uma das mais ecológicas que existem: recupera o solo, e não o contrário", afirma.

Nas propriedades que gerencia, explica o executivo, as queimadas foram eliminadas desde 1995 e, nos fornecedores do grupo, já foram erradicadas em quase 60%.

O modelo adotado é totalmente autossustentado: depois que a cana é colhida crua, a palha permanece no chão, entra em processo de decomposição e, em determinado momento, atua como herbicida natural no combate às pragas, transformando-se numa espécie de camada protetora natural contra a erosão do solo. Como ela contém metade dos nutrientes necessários ao crescimento da cana, se aproxima do chamado solo ideal, que tem características de nativo e 5% de matéria orgânica. "Na São Francisco e na Santo Antônio, avançamos para 3% nos últimos 15 anos", informa Balbo, apontando uma produtividade de 104 toneladas de cana por hectare nas usinas sob sua responsabilidade, contra uma produtividade média de 86 toneladas de cana por hectare no Estado de São Paulo, nos últimos três anos.

Outra usina da região Centro-Sul, a Jalles Machado, localizada em Goiás, conseguiu reduzir o consumo de água em 57,76% no campo e em 49,11% na cadeia industrial graças a um programa de gerenciamento de resíduos implantado em 2004. Em relação à lavoura de cana, o seu aporte de água saltou de 6,44 m³ para 2,72 m³ por tonelada de cana moída. No chão de fábrica, caiu de 2,83 m³ para 1,44 m³ por tonelada.

Segundo Alfredo Lorenzo, diretor da Siemens Water Technologies, para contornar os picos de utilização de água - a fase de lavagem da cana e de condensação e evaporação nos processos de produção de açúcar e álcool, entre outros -, "é possível almejar um melhor aproveitamento da água usando o valor energético presente no esgoto da usina para geração de energia, otimizando a reciclagem da água da caldeira com tecnologias avancadas de filtração ou reciclando o esgoto tratado para usá-lo como água de caldeira ou em serviços secundários".

"Se considerar a otimização da reciclagem da água de condensação da caldeira, bem como a reposição da água com água procedente do esgoto tratado, a redução de consumo pode chegar a 50%", estima o executivo, lembrando que a Siemens está presente no segmento de água em cerca de 160 localidades, oferecendo um portfólio com mais de 900 produtos e soluções de alta tecnologia em mais de 200 mil projetos levados a termo.

Quanto à Dedini - Indústrias de Base, outra gigante do setor, aposta na lavagem a seco. Outra alternativa para reduzir a dependência da captação de água, já na área de processamento, consiste em otimizar a etapa de evaporação, usando a sangria do vapor, e aproveitar a condensação para produzir água.

O gigantesco parque de maquinário e soluções tecnológicas à disposição da indústria sucroalcooleira brasileira conta ainda, desde há pouco, com novo equipamento aperfeiçoado por um grupo de pesquisadores de Ribeirão Preto.

Patenteado com o nome de "equipamento processador rotatório de impacto aplicado na limpeza a seco da cana-de-açúcar", o protótipo faz o que o próprio nome diz, dispensando o grande volume de água necessário para lavar a cana, depois da colheita no campo e antes do seu envio às unidades de esmagamento.

Em sua defesa, os inventores argumentam que mesmo com a reutilização da água na cadeia produtiva, após tratamento, o consumo continua elevado, pois um grande volume se perde por evaporação, respingo e por tensão superficial, uma vez que a água continua aderida às hastes da cana.

O reúso da água também é uma operação cara, que requer a utilização de bombas elétricas de aeração, filtragem, floculação e outras. O novo equipamento - segundo se noticiou na imprensa especializada - dispensa tudo isso, pois se baseia no princípio de impacto e atrito contínuo para eliminar resíduos e terra. Algo como bater um sapato contra outro para limpá-lo. Por fim, o que é ­recolhido - terra ou aparas -, depois da lavagem a seco, volta para o campo na condição de adubo.


O PROTOCOLO AMIGO

Um compromisso entre usineiros e o governo pelo bem de todos: esta é a meta do chamado Protocolo ­Agroambiental, assinado pelo governo de São Paulo e União da Indústria ­Sucroalcooleira no âmbito do Programa Etanol Verde, um dos 21 projetos estratégicos da Secretaria de Meio ­Ambiente.

Visando sinalizar as boas práticas do setor através de um certificado de conformidade, o protocolo dá um empurrãozinho em direção à sustentabilidade ambiental da atividade sucroalcooleira, induzindo a uma diminuição do volume de águas captadas para atender às necessidades do processo de produção industrial do açúcar e do álcool e normatizando o consumo máximo de 1 m³ de água por tonelada de cana-de-açúcar moída.

Em cada usina, o Plano Técnico de Conservação de Recursos Hídricos deve considerar a possibilidade de reúso da água e fechamento dos sistemas de utilização do insumo visando uma taxa de consumo mínima, além do reúso dos efluentes líquidos na lavoura de cana, para fazer a irrigação de salvamento das soqueiras, evitando, assim, mais captação de água para este fim.

O estabelecimento desses parâmetros, associado à cobrança pelo uso de água, é apenas uma primeira etapa a caminho da adequação ecológica: atualmente, as diretrizes para o licenciamento de empreendimento sucroalcooleiro no Estado de São Paulo admitem que as usinas localizadas em áreas classificadas como adequadas para o plantio de cana utilizem até 1 m³/TC, mas, num futuro que se pretende próximo, nas usinas situadas em áreas adequadas com limitações e restrição, o uso de água deverá cair para, no máximo, 0,7 m³/TC - sob risco de a outorga não ser concedida, no ato da renovação da licença de operação.

Para acompanhar as atividades, a cada dois anos, as usinas devem apresentar à Cetesb o chamado Programa de Redução de Uso de Água (Prua): cronograma de estudo de redução da captação de água. Além de prever a medição de vazão, o documento deve  informar o consumo específico de recursos hídricos e comprovar o controle da qualidade da água captada e utilizada, incluindo a ­caracterização dos efluentes e a carga orgânica eventualmente lançada nos cursos d'água.

Em 2025, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a projeção é que a indústria consuma aproximadamente 1.170 m³ de água ao ano. O Brasil detém 12% das reservas de água doce do planeta e 25% das águas doces frias disponíveis, além de 112 trilhões de m³ de água doce no subsolo.

Com base em dados apresentados em 2007 pela Universidade Federal de Pelotas, a maior demanda de insumo parte da agropecuária (61%), seguida das cidades (21%) e da atividade industrial (18%).

Até 2014, estima-se que o Estado de São Paulo abrigará cerca de 7 milhões de hectares de cana-de-açúcar plantada, dos quais 5,9 milhões de hectares em áreas ­mecanizáveis.



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