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Um serviço "invisível" Edição 12

 

Pesquisa revela que um terço da população não sabe o que é saneamento básico
Por Claudia Izique

O Instituto Trata Brasil e o IBOPE Inteligência consultaram, em junho de 2009, 1.008 pessoas em 79 cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes, com o objetivo de avaliar a percepção da população sobre o saneamento básico, isto é, a importância que elas atribuíam ao serviço, o entendimento que tinham do impacto social dos serviços e o grau de informação sobre a responsabilidade desse modalidade de serviços, entre outras questões. Os resultados foram surpreendentes. Mostrou-se que, por falta de informação, o saneamento não é considerado prioridade, é um tema "invisível" e, ante a falta de serviço de coleta e tratamento de esgoto, a atitudes da população é de resignação.

A pesquisa revelou que 31% não sabem o que é saneamento básico.  Apesar de desconhecer o significado do termo, elas sofrem com a falta de saneamento: quase 1/3 dos domicílios  convivia com o mau cheiro dos esgotos, 1/5 com problemas de refluxo e praticamente a mesma quantidade de pessoas é vítima de enchentes e inundações.

Carecem também de informações sobre os serviços de saneamento disponíveis na região. Apesar de os dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério das Cidades, indicarem que apenas metade da população tem acesso a esgoto, 77% das pessoas acreditam estar ligadas à rede pública, mesmo que assim não seja. De acordo com Hélio Gastaldi, diretor de Atendimento e Planejamento do IBOPE Inteligência, quanto mais baixa a renda, a escolaridade e a classe social do entrevistado, menor o percentual dos que estão ligados à rede. "Esse resultado era esperado, mas o que chama a atenção é a quantidade significativa das pessoas escolarizadas e com condição financeira acima da média que ainda não contam com esse serviço essencial. Um terço da classe D/E (32%) não dispõe de acesso à rede pública, proporção que sobe para um quinto (21%) na classe C, e para cerca de um décimo dos domicílios (9%) da classe A/B", ele comenta.

Mais de um quarto dos entrevistados desconhecem o destino do esgoto de sua cidade. Para 32%, ele seguia direto de suas casas para os rios. Apenas 22% acreditavam que os resíduos iam para uma estação de tratamento. E quase 17% dos entrevistados não souberam opinar sobre o assunto. Entre os que acham que o esgoto seguia para os rios, 32% não estão ligados à rede pública.

A desinformação é ainda maior quanto se trata do tratamento de esgoto. Os entrevistados demonstraram grande dificuldade para entender o percurso e o destino do esgoto que sai de suas casas. E pior: metade afirmou estar satisfeita com o serviço. Os insatisfeitos são os mais escolarizados, residentes nas cidades da região Nordeste, moradores da periferia, das cidades de pequeno porte e de favelas. "Entre os que não possuem o serviço de coleta, a insatisfação chega a 65%, mas o que surpreende é que praticamento 1/5 encontra-se satisfeito com um serviço que não recebe", ressalta Gastaldi.

Quem não estava ligado à rede de esgoto, demonstrava interesse em ter acesso ao serviço, mas metade afirmou não estar disposta a pagar por isso. Elas já consideram caro o valor cobrado pelo serviço de abastecimento de água. Apesar dessa resistência, é expressivo o número de pessoas que tem notícias sobre o impacto negativo gerado pela ausência dos serviços de coleta e tratamento de esgoto. Os mais citados foram as doenças e problemas de saúde (70%), mau cheiro (41%), presença de ratos (36%), presença de insetos (27%) e poluição de rios (14%). Ainda assim, inquiridas sobre os serviços mais urgentes, 21% citaram a limpeza de bueiros e boca de lobo. Apenas 15% mencionaram a coleta de esgoto, o mesmo percentual dos que elegeram a retirada de entulho das ruas.

A maioria dos entrevistados entende que a administração municipal é responsável pelos serviços de saneamento. Mais da metade considera que a prefeitura se esforça para universalizar os serviços. Apenas um quarto considera que o poder público não faz nada. E é muito baixo o número de pessoas que declara ter levado em conta as condições de esgoto quando escolheu o candidato nas últimas eleições municipais. Na opinião de 61% dos pesquisados, os candidatos não estavam preocupados com o saneamento básico no último pleito. Essa percepção é maior na periferia dos municípios pesquisados, em cidades do Norte e do Centor Oeste e entre os que não estavam ligados à rede.

Mesmo atribuindo grande importância ao tema, a população não se mobiliza para agir de forma organizada em relação à carência do serviço. Apenas uma pequena parcela (5%) declarou já ter feito abaixo-assinados ou contato telefônico com os órgãos responsáveis. "Até mesmo nos domicílios sem acesso à rede pública de coleta, mais de oito em cada dez nunca teve qualquer atitude", comenta Gastaldi.

A pesquisa constatou que 89% das pessoas gostaria de ter mais informações sobre o assunto. Indagados sobre onde gostariam de buscar mais informações sobre serviços de coleta e tratamento de esgoto, 34% dos entrevistados mencionaram a TV; 20% citaram a conta de água; 17%, boletim informativo; 17%, carta da prefeitura; 16% elegeram o rádio e 15%, os jornais.

"É preciso articulação de mídia, parceria entre governo e escola para colocar o tema em pauta e informar a população, além de uma maior atuação das prefeitura", disse Raul Pinho, presidente executivo do Instituto Trata Brasil. "O Brasil não vai se tornar um país de primeiro mundo enquanto a agenda de saneamento não for valorizada."



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