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O ciclo da petroquímica Edição 14

 

Como funciona a estação de reúso de água da Petrobras na Refinaria de Capuava, em Mauá
Por Luciano Delfini

Um bilhão de litros. Esta é a estimativa da Petrobras para a quantidade de água que já passou pelo sistema de tratamento construído para atender a estatal e as outras 10 empresas do Polo Petroquimico de Capuava, em Mauá, no ABC paulista. O sistema, que se tornou uma referência no País, está completando dois anos de operação.

Sua importância tem a ver com uma palavra cada vez mais frequente no jargão dos processos industriais, quando se fala de água: reúso. O Polo Petroquímico conta com a primeira estação de reúso de água da América Latina, o maior projeto integrado de reúso de água industrial do Brasil e a primeira empresa da América Latina com descarte zero de efluentes para os rios - no caso, a própria Refinaria de Capuava (Recap), da Petrobras.

O projeto da estação de reúso custou cerca de R$ 5 milhões e venceu o Prêmio Petrobras de Segurança, Meio Ambiente e Saúde, que incentiva o desenvolvimento de novas ideias entre os funcionários, em parceria com o Centro de Pesquisa da Petrobras (Cenpes).  "Com o uso do efluente, deixamos de captar e despejar água no rio", afirma o gerente de produção da refinaria, Alexandre Jardim. "Os impactos ambientais tendem a diminuir."

O rio a que ele se refere é o Tamanduateí, um dos principais afluentes do Tietê e o principal canal de drenagem da região do ABC. Com 35 km de extensão e influência sobre uma área de 323 Km2, o rio nasce em Mauá e passa por dentro do terreno da refinaria da Petrobras, antes de cortar a região central da cidade de São Paulo e desaguar no Tietê. Funciona como uma grande galeria de águas pluviais, com variações bruscas em seu nível d'água. "O Tamanduateí hoje é praticamente um esgoto. O projeto visa, com um tratamento complementar, consumir essa água para fins industriais", explica Jardim.

A estação de reúso de água da Recap tem capacidade para tratar 1,6 bilhão de litros por ano, sendo 900 milhões de litros/ano do Tamanduateí e 700 milhões de litros/ano provenientes do tratamento de efluentes da refinaria. Do total de 1 bilhão de litros que o sistema já tratou desde que começou a funcionar, em abril de 2008, 700 milhões correspondem à água de reúso, ou seja, água que deixou de ser captada do rio Tamanduateí, e efluente que não foi descartado no rio. Após passar pelo processo de tratamento, a água é distribuída às empresas do Polo Petroquímico do ABC.

O conjunto das 11 empresas do polo de Capuava tem outorga para retirar 1.300 metros cúbicos por hora do Tamanduateí. A água retirada do rio tem de passar por tratamento mesmo para uso industrial, porque 75% da vazão do Tamanduateí contém esgoto in natura, despejado desde a nascente.

A cadeia petroquímica, por sua vez, produz derivados do petróleo que, em geral, são compostos químicos com características físico-químicas e toxicológicas que contaminam o solo e a água quando despejados em certas concentrações. "Apesar de perigosas à saúde ­humana, as contaminações relativas às atividades do setor petroquímico são totalmente gerenciáveis e passíveis de remediação", afirma o geólogo Mateus Delatim Simonato, da ­Servmar Ambiental & Engenharia, empresa que atua nas áreas de descontaminação do solo e em gestão de recursos hídricos e resíduos industriais.

A tecnologia empregada na Recap utiliza o chamado processo biológico, que inclui um sistema composto por uma estação de tratamento de efluentes, a qual opera com um equipamento primário de decantação, seguido por uma etapa ­secundária de tratamento por lodo ativado. O processo remove a maioria dos poluentes contidos no efluente. Uma legislação estadual de 1976 estabelece as condições sob as quais ­esse efluente pode ser despejado nos cursos d'água.

O próximo passo é o tratamento final da água, feito por flotação de alta taxa, denominado Densadeg, uma tecnologia desenvolvida pela ­Dégremont. O processo é empregado para reduzir os sólidos suspensos no efluente, tornando a água novamente apropriada para uso industrial. O reúso da água, no entanto, exige tratamento adicional para remoção dos sólidos biológicos residuais. Se a água for usada em sistema de refrigeração ou de geração de vapor, por exemplo, é necessário remover os íons. Nesses casos, a Petrobras emprega processos de osmose inversa ou eletrodiálise reversa, com diferentes graus de tratamento prévio.

Diversas tecnologias de tratamento prévio foram avaliadas: filtração em membranas de ultrafiltração e microfiltração, sistemas de clarificação avançados e adsorção em carvão ativado. A estatal optou por um biorreator com membranas (MBR) que associa o tradicional processo de lodo ativado à filtração em membranas de ultrafiltração. Cascas de nozes são usadas como meio filtrante para aumentar a eficiência do biorreator na remoção de óleo.

A legislação brasileira é clara quanto ao compromisso do setor produtivo com relação à preservação de recursos hídricos, que passa pelo tratamento de efluentes e reúso de água. Desde que seja feita avaliação da sequência mais adequada de tratamento de acordo com as características do efluente e da destinação que será dada à água tratada, a tecnologia usada pela Recap pode ser aplicada em outros segmentos da indústria. É importante levar em conta, porém, uma avaliação realizada por estudos em escala-piloto.

Segundo dados da Petrobras, o uso do biorreator com membranas no tratamento de efluentes reduz em até 90% o lançamento de carga orgânica e amônia no corpo receptor. Outra tecnologia, que emprega carvão ativado, também tem demonstrado, de acordo com a estatal, grande vantagem na redução da toxicidade crônica dos efluentes de refinaria, a qual está relacionada com hidrocarbonetos não biodegradáveis.

O reúso tem reduzido em cerca de 25% a necessidade de captação de água, segundo a Petrobras. Durante o refino do petróleo, sem a prática do reúso do efluente final, 30% da água é descartada - o restante é direcionado ao consumo em trocas térmicas. Já com o reúso, o porcentual de efluente despejado diminui para cerca de 10%.

Além de sua importância para a preservação ambiental, o tratamento de efluentes e o reúso da água diminuem sensivelmente o custo de produção. A economia, de acordo com Simonato, ocorre de duas formas. No curto prazo, diz o geólogo, com a redução das despesas com captação, tratamento, distribuição e armazenamento da água. No longo prazo, essas práticas evitam possíveis aumentos na cobrança pelo uso da água, estabelecidos pelos Comitês de Bacia Hidrográfica.



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