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A conta de luz das empresas de água Edição 14

 

Companhias de saneamento buscam alternativas para reduzir o gasto com energia elétrica
Por Carlos Lo Prete

Entre os muitos transtornos causados por um apagão de energia na região Sudeste, em novembro do ano passado, houve a interrupção também do abastecimento de água para milhões de pessoas. O blecaute durou apenas algumas horas, mas em várias localidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo os consumidores tiveram de esperar até três dias para ver a água de volta às torneiras. O incidente fez com que muitas pessoas se dessem conta de como a eletricidade é vital para os processos de captação, tratamento e distribuição das companhias de sanea­mento básico. A energia elétrica também tem um peso cada vez maior no custo operacional dessas empresas e impõe como necessidade urgente a busca de alternativas para reduzir o gasto.

As opções encontradas pelas companhias vão desde a troca do fornecedor de eletricidade, por meio da migração para o mercado livre, até a geração de energia própria, aproveitando o gás emitido no tratamento do esgoto ou a força hidráulica de suas barragens. Entre uma solução e outra, todas buscam também diminuir o consumo, com melhorias na operação dos sistemas.

No passado, o setor de saneamento contava com tarifas de energia subsidiadas, o que fez as companhias desconsiderarem a importância deste item na sua composição de custos. Uma das consequências disso foi o superdimensionamento das unidades de captação de água, para minimizar o risco de interrupção do abastecimento, ainda que essa prática implicasse uma operação antieconômica e com elevado consumo de energia. O fim do subsídio trouxe as empresas de saneamento de volta à realidade.

Hoje, a conta de luz da ­Sabesp, maior companhia de sanea­mento do País, só perde para a folha salarial entre suas maiores despesas, representando aproximadamente 16% dos gastos se forem descontados os pagamentos a serviços terceirizados. Em 2008, a empresa teve de desembolsar R$ 460 milhões pela utilização de 2.142 GWh - eletricidade suficiente para atender às necessidades de 4,2 milhões de cidadãos. A operação Água responde por 86,4% desse consumo, devido à enorme demanda para bombeamento de ­captação e distribuição, ­enquanto 12,9% ficam para a operação Esgoto e somente 0,7% para as funções administrativas.

Presente em 366 municípios de São Paulo, a Sabesp responde por 1,84% de toda a energia elétrica consumida no estado, ou 0,55% de todo o consumo energético do País. "Duzentas ­Sabesps consumiriam toda a eletricidade que o País utiliza normalmente", brinca o engenheiro Adriano Anaia, gerente do Departamento de Gestão de Energia da empresa.

Os prestadores de serviços de água e esgotamento sanitário respondem por 2,63% do consumo total de energia elétrica do Brasil, o equivalente a cerca de 10,3 bilhões de kWh/ano, segundo uma projeção feita a partir dos dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades.

Mercado livre - No caso da Sabesp, o custo financeiro seria ainda maior se a empresa não tivesse migrado para o mercado livre de energia. Entre 2001 e 2008, as tarifas de energia para as concessionárias de serviços públicos subiram em média 124%, segundo dados da ­Aneel, enquanto o custo de energia da Sabesp teve variação significativamente menor, de 103%.

Em 2004, a empresa decidiu buscar alternativas e abriu licitação para colocar no mercado livre suas instalações de maior consumo de eletricidade, que respondiam por cerca de 40% da demanda energética.

Até então, sete dessas instalações eram abastecidas pela Eletropaulo, três pela ­Bandeirante e uma pela Electro. A vencedora da concorrência foi a Cesp, com quem a Sabesp assinou um contrato de oito anos, até outubro de 2012. "A migração para o mercado livre nos proporcionou uma economia de R$ 126 milhões entre 2004 e 2009", contabiliza Anaia.

Mas essa migração deve ser considerada com muito cuidado, conforme ressalva Ricardo Augusto Simões Campos, diretor presidente da Copasa, a companhia estadual de saneamento de Minas Gerais. "O setor de saneamento conta com uma tarifa diferenciada dentro do mercado cativo", explica Simões Campos. Por causa dessa diferenciação, o mercado cativo ainda é o mais vantajoso para a companhia mineira, mas a migração para o mercado livre no futuro não está descartada. "No momento oportuno e bem utilizado, o mercado livre pode trazer reduções importantes", admite o executivo.

No Sistema Cantareira da Sabesp, por exemplo, a mudança possibilitou economia em grande escala. Situado na porção norte da Região Metropolitana de São Paulo, o sistema apresenta um desnível de 120 metros desde a estação elevatória de água bruta até a estação de tratamento, o que causa um impacto considerável no gasto energético dos sistemas de ­bom­beamento.

Uma operação ­Esgoto da ­compan­hia também foi escolhida para ser atendida pelo novo fornecedor. Mesmo representando menos de 13% do gasto energético total da empresa, o tratamento de esgoto pelo sistema de lodos ativados, com redução de matéria orgânica por meio da ação de bactérias, também tem grande demanda energética por causa dos equipamentos sopradores responsáveis pela injeção de ar durante o processo.

Biogás - Foi justamente na operação Esgoto que a Sabesp obteve resultados promissores de geração própria de energia. Situada no oeste da Região Metropolitana, a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Barueri vem obtendo bons resultados com a produção de biogás, a partir do processo de digestão do lodo. "O biogás pode oferecer uma alternativa energética de alto desempenho, especialmente na alimentação de caldeiras, turbinas e motores de combustão", afirma Anaia. Até agora, a produção de biogás da Estação de Barueri tem sido rea­lizada em âmbito experimental, mas já neste ano a Sabesp começará a buscar empresas interessadas em participar de licitações para explorar comercialmente o produto. Dessa forma, uma atividade que era grande consumidora de energia passará a ser geradora de eletricidade e fonte de receitas.

A iniciativa guarda semelhanças com um projeto da Sanepar, do Paraná. Na ETE Ouro Verde, em Foz do Iguaçu, a produção de eletricidade não apenas já está consolidada, como também já pode chegar aos consumidores pela rede de distribuição da Companhia Paranaense de Eletricidade (Copel), graças a um contrato inédito de geração distribuída.

Pioneira entre as empresas de saneamento do Brasil a buscar o aproveitamento do biogás na produção energética, a Sanepar acredita que, no futuro, os ganhos obtidos no processo poderão proporcionar uma economia significativa.

"Os resultados serão sentidos nas contas de energia elétrica da empresa no médio e no longo prazos", diz Maria Arlete Rosa, diretora de Meio Ambiente e Ação Social da companhia.

Animada com as perspectivas, a Sanepar desenvolve um projeto de geração para a ETE Atuba Sul, em Curitiba. "Além disso, estamos em fase de elaboração de projeto no aterro de Cianorte e na Estação Jupira, em Foz do Iguaçu, que receberá os efluentes da Universidade Federal da Integração ­Latino-Americana (Unila)", informa a diretora, referindo-se à instituição de ensino inaugurada neste ano pelo governo federal. Em Minas Gerais, a ­Copasa tem um projeto de aproveitamento do gás na ETE Arrudas e avalia a possibilidade de repetir a experiência em estações menores.

PCHs - Além do gás emitido pelas estações de tratamento de esgoto, outro caminho encontrado pelas companhias de saneamento para gerar energia é a utilização do potencial hidrelétrico de suas barragens. A Copasa estuda colocar em prática essa alternativa nos sistemas Rio Manso, Serra Azul, Verde Grande, Montes Claros e Vargem das Flores. A Sabesp abriu no fim do ano passado uma licitação para atrair empresas interessadas na construção de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) em seus reservatórios.

A licitação foi vencida pela Tecniplan e pela Servtec , que ofereceram à Sabesp 23% da energia gerada (o edital previa um mínimo de 20%). O projeto envolve  duas centrais hidrelétricas com potencial de geração de 7 megawatts (MW), o suficiente para abastecer uma cidade com 100 mil habitantes. Uma das usinas, com potencial de 4 MW, será instalada na maior unidade de tratamento da Sabesp - a do Guaraú, na Serra da Cantareira, que atende 8,8 milhões de habitantes. A outra usina ficará na estação de tratamento do Atibainha, também do sistema Cantareira.

O investimento exigido pelos projetos, segundo a Sabesp, é de R$ 27 milhões, e a receita total com a venda da energia pode chegar a R$ 8 milhões ao ano. A concessão vai até 2030, e as obras devem durar dois anos e dez meses.

"Em ambos os casos (biogás e PCHs), a Sabesp deverá tornar-se sócia dos empreendimentos, como autoprodutora de energia, mas isso não significa que a empresa será autossuficiente", ressalva o engenheiro Adriano Anaia. Avançando ainda mais na direção da produção própria de energia, a companhia paulista negocia a compra da Empresa Metropolitana de Água e Energia (Emae), geradora estatal avaliada em cerca de R$ 600 milhões. O negócio está em discussão há meses, mas, na opinião de Anaia, não deve ser fechado no curto prazo, embora traga benefícios estratégicos para ambas as companhias.

A associação proporcionaria uma gestão integrada de parte significativa dos recursos hídricos da Região Metropolitana de São Paulo, principalmente do sistema formado pelo rio Pinheiros e pelas represas Billings e Guarapiranga. Atualmente, a água disponível nesse sistema serve tanto à produção de energia, pela Emae, quanto ao abastecimento público, pela Sabesp. Com o fornecimento de energia elétrica pela Emae para as maiores unidades de consumo da Sabesp, a companhia de saneamento poderia economizar de R$ 3 milhões a R$ 5 milhões por ano, segundo José Eduardo Cavalcanti, coordenador da Divisão de Engenharia Sanitária do Instituto de Engenharia. Ao mesmo tempo, a Emae obteria um aumento de receitas de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões por ano. Cavalcanti aponta que a união das empresas ainda permitiria a alavancagem de recursos para investimentos em controle de cheias e saneamento básico da região metropolitana, por meio da ampliação da geração de energia da Usina Henry Borden, em Cubatão.

Prêmio - Essas investidas na produção energética, porém, não eximem a Sabesp e as demais companhias de saneamento de reforçarem ao máximo ­suas políticas de redução do consumo. No Ceará, a saída encontrada pela Cagece foi a redução de perdas de água na rede de distribuição de Fortaleza, mediante o monitoramento da pressão na rede. O objetivo é reduzir os vazamentos, obtendo, consequentemente, economia de energia pela redução do volume bombeado e permitindo operação mais eficiente de todo o sistema.
"Esse tipo de medida, além de ser bastante rentável, possui grande potencial de replicabilidade nas empresas de saneamento", afirma Luiz Celso Pinto, gerente de Controle de Perdas e Eficiência Energética da companhia cearense. "O tempo de ­retorno do investimento foi inferior a dois meses, e a tecnologia empregada para a transmissão de dados tem baixo custo."

As providências começaram pela instalação de 13 estações piezométricas telemétricas (que medem a pressão na rede de distribuição) na Unidade de Negócios Metropolitana Leste, área de maior concentração habitacional, com cerca de 500 mil habitantes.

Também foi instalado um sistema de transmissão de dados de pressão para o Centro de Controle da Operação (CCO) usando telefonia celular GPRS (General Packet Radio Service). Com a iniciativa, a Cagece foi vencedora do Prêmio Nacional de Conservação e Uso Racional de Energia 2009, do Ministério das Minas e Energia, na categoria saneamento.
"Somente no projeto piloto foram investidos aproximadamente R$ 140 mil, com recursos próprios, economizando-se 2.446 MWh/ano de energia e mais de 3 milhões de m³ de água por ano, em valor absoluto medido. Se for considerado o crescimento vegetativo da população, os valores economizados são ainda maiores (3.763 MWh e cerca de 6,7 milhões de m³ de água por ano)", calcula o gerente.

O projeto inicial de 13 estações já foi expandido para 44 estações na capital, e mais 40 no interior.  A Gerência de Controle de Perdas e Eficiência ­Energética está desenvolvendo outras iniciativas, ­como a implantação de um parque eólico com capacidade de gerar 15% a  20% de toda a energia consumida pela companhia, aproveitando as condições atmosféricas altamente favoráveis do Ceará, considerado o Estado brasileiro com maior potencial de aproveitamento dessa matriz energética.

"Iniciamos também o estudo de aproveitamento de miniturbinas, em adutoras gravimétricas de grande altura ­piezométrica, e a ampliação das atividades do laboratório móvel de eficiência energética, que elabora diagnósticos energéticos dos sistemas da capital e do interior", afirma Luiz ­Celso. De olho nas soluções encontradas pelas demais companhias do setor, a ­Cagece estuda investir na produção de biogás, como a Sanepar, e negocia a contratação de energia no mercado livre, a exemplo da Sabesp.

"A Cagece é uma das maiores demonstrações nacionais de gestão eficiente de recursos", elogia Marco Aurélio Moreira, gerente da Divisão de Eficiência Energética na Indústria e Comércio da Eletrobrás, um dos coordenadores do prêmio recebido pela empresa cearense. "Motivada inicialmente pela escassez hídrica em sua área de atuação, a Cagece investiu na capacitação de seus profissionais visando à excelência em gestão, fundamentalmente aquela voltada à eficiência energética e ao combate ao desperdício de água e energia em todos os processos", acrescenta.

De acordo com Moreira, nesta última edição do prêmio o projeto da Cagece destacou-se pela extrema simplicidade da sua solução técnica apresentada frente aos impressionantes resultados energéticos obtidos a partir da redução das perda de água nos sistemas envolvidos. "A Cagece está situada numa região do Brasil que não é a mais pujante em termos de geração de renda", observa. "Esse aspecto exige uma atuação em nível de excelência também na condução financeira dos serviços prestados à sociedade", acrescenta.

Gestão - Foi para apoiar e incentivar experiências desse tipo que a Eletrobrás criou, em 2003, o Programa de Eficiência Energética em Saneamento Ambiental (Procel Sanear), uma extensão do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), mais conhecido pela etiqueta que atesta o uso eficiente de energia em eletrodomésticos e aparelhos elétricos.

O Procel vem atuando no setor de saneamento desde 1996, mas tinha um foco restrito ao uso eficiente de energia nos conjuntos motobombas dos sistemas de abastecimento. Com a criação do Procel Sanear, o Programa ampliou seu enfoque e passou a abranger também ações relacionadas à conservação da água, visando integrar os dois temas, além de contemplar projetos e políticas governamentais articuladas. Seus instrumentos vão desde a formulação de normas técnicas e o estabelecimento de metas de conservação de energia, até o financiamento de projetos de redução do consumo, passando pela premiação das boas práticas, como as da Cagece.


Redução do consumo de energia

Soluções encontradas pelas companhias de saneamento

Migração para o mercado livre de energia
Geração própria
Pequenas centrais hidrelétricas (PCHs)
Biogás
Melhorias operacionais para diminuição do desperdício



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