Como era verde meu vale | Revista Água - Gestão e Sustentabilidade Revista Água Gestão e Sustentabilidade

Busca



Como era verde meu vale Edição 14

 

Após a enchente de 2008, um projeto inspira Santa Catarina a se reerguer em bases sustentáveis
Por Celso Kinjô

Descer ao fundo do poço para - que remédio? - empreender a volta com estoicismo, ­numa repetição do mito de Sísifo, tem sido prática centenária no Vale do Itajaí. A cada dois anos, frequência estabelecida em um século e meio, a bacia do rio Itajaí-Açu transborda. Embalada pela fúria dos elementos, arrasta tudo o que encontra pela frente.

Foi assim em novembro de 2008. Após 51 dias de chuva quase ininterrupta, no fim de semana dos dias 22 e 23, enxurradas e deslizamentos de terra alteraram a geografia da região. Morros vieram abaixo. Crateras se abriram, engolindo o que estivesse à superfície. Bairros foram simplesmente removidos, sob a pressão de imensas ondas de lama. Campos de cultivo foram devastados e milhares de cabeças de gado foram ­afogadas pelas águas.

O saldo exibiu números sinistros: 49 cidades em "situação de emergência", e mais 14 em "situação de calamidade pública"; mais de cem mortos no estado, milhares de desabrigados e 1,5 milhão de pessoas afetadas, direta ou indiretamente. Uma possível explicação pode estar na análise do geólogo Juarês Aumond, professor da Universidade Regional de Blumenau. "Naqueles dias, aqui em Blumenau, choveu cerca de 500 milímetros em 48 horas, praticamente a metade do que chove num ano", recorda. "O solo já estava encharcado. Com essa sobrecarga, o conjunto todo não absorvia mais água, a floresta não absorvia mais água, as áreas urbanas não absorviam mais água."

Junte-se a memória daquele fim de semana ao perfil geográfico, e molda-se o retrato de uma tragédia anunciada. "O fato de as cabeceiras do rio Itajaí-Açu estarem na Serra Geral tem um impacto hidrológico muito grande, porque essa serra, que chega a 700 metros de altitude, funciona como um anteparo que capta a umidade vinda do oceano", descreve o climatólogo Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), um dos maiores especialistas mundiais no assunto. "Ao encontrar esse paredão, o ar sobe, resfria e condensa a umidade nas nuvens, e aí chove, chove copiosamente. E como ali é uma serra, a água desce rapidamente - inundações repentinas são ­fenômenos naturais."

Naquele sábado, 22, o Itajaí-Açu amanheceu 3,66 m ­acima do nível normal. Até aí, tudo bem, para um rio que registrou picos de 17 m, em enchentes históricas. O problema era a persistência da chuva. Ao meio-dia, o nível acusava 4,15 m acima. Às 3 h da tarde, cravou a marca dos 5 m.

Calamidade - Era hora de agir. Rapidamente, o pessoal da Defesa Civil, com bombeiros experientes e preocupados, dividiu-se em grupos para tentar retirar moradores de áreas de risco. Nessa altura, mais que a enchente, a ameaça poderia vir na forma de desabamentos, rachaduras no solo, erupções súbitas.

Às 18 h do sábado, o Itajaí-Açu atingiu 11 m acima do seu leito normal e dois morros cederam, um deles em Gaspar, pequena cidade no Vale do Itajaí. A tragédia piorou com as trevas da noite. Morros, encostas e barreiras foram derretendo sob imensas vagas de água, lama e pedra. O que estivesse pela frente era inevitavelmente arrastado: roças, postes, pontes, casas, animais, gente até. Na noite do sábado, 746 pessoas estavam desabrigadas, 43 municípios se encontravam ilhados e o governador Luiz ­Henrique da Silveira, alarmado, decretou situação de emergência. Depois, a situação degringolou para calamidade pública,  definida nos manuais como comprometedora da segurança e da vida das pessoas, com sérios danos à comunidade.

O relato de um importante personagem daquele fim de semana resume bem os acontecimentos. "Parecia um filme de Hollywood. Você vê aquele silêncio, só alguns animais latindo, nenhuma pessoa, e a gente procurando, procurando... A roupa ali estendida, todos saíram às pressas, aquilo me chamou a atenção, porque do lado de onde viemos, a estrada virou uma cratera, e 15 metros à frente, também era cratera. Então, eu me senti naquele momento totalmente isolado do mundo, eu e a minha equipe."

O sargento Evandro, da Defesa Civil de Gaspar, autor do depoimento, não parou um instante naqueles dias tormentosos.  Mas o pior viria no domingo. Quando o dia clareou, ruas tinham virado rios, estradas desapareceram, contemplava-se um cenário de destruição até onde a vista alcançasse.

Na Bunge Alimentos, cuja sede fica em Gaspar, um Comitê de Gestão de Crise, composto por membros de vários departamentos que se mobilizam em emergências, operava em plantão permanente, até por causa do histórico das enchentes. Tendo em vista o tamanho do desastre, o foco do Comitê se ampliou e, além de checar a segurança de funcionários e das fábricas, voltou-se para toda a comunidade. O ginásio de esportes da Bunge foi transformado em armazém das doações que chegavam de todas as partes do País, e a malha logística da empresa foi acionada para transportar material para abrigos de flagelados em Gaspar (2), Blumenau (35) e outras cidades vizinhas.

Dessa superposição de prioridades resultou o embrião que foi batizado de Conhecer para sustentar: Vale do Itajaí. Deu-se, na verdade, uma relação de causa e efeito, como escreveu o presidente da Bunge Alimentos, Sérgio Waldrich: "Passamos por momentos que nos levaram a decidir o propósito de nossas vidas.

Escolhemos este vale para viver, é o nosso berço. Estamos unido forças, fortalecendo laços. Somos um povo lutador, jamais desistimos. Vamos escrever uma nova história, ser a cidade sonhada por todos. A reconstrução é tarefa de cada um, é dever de cada cidadão".

Escola - Hoje, menos de um ano e meio depois da tragédia, a população de Gaspar prepara um novo jeito de viver. Um bairro inteiro, devastado pela inundação, será reconstruído. Mas a novidade maior é o conceito de "urbanismo sustentável" que articula o projeto. No lugar do automóvel e de avenidas monumentais, privilégios às bicicletas e ciclovias. O pedestre vai caminhar sobre calçadas feitas de concreto de entulho.

Observando o bairro à distância, tem-se uma ideia mais precisa do que significa "urbanismo sustentável". Uma de ­suas premissas está na convivência harmoniosa com o principal acidente geográfico da ­região, o rio Itajaí-Açu, que forma a maior bacia hidrográfica de Santa Catarina.

Quando se sabe que, ao longo dos últimos 158 anos, aconteceram mais de 80 cheias acima de dez metros, média de uma a cada dois anos, fica evidente que a relação entre homem e natureza foi modulado por recíproca hostilidade. A cada metro quadrado construído, a cada porção de mata desbastada, o rio respondia com seu rugido atávico, encorpado na estação das chuvas, provocando perdas e mortes.

Foi o que aconteceu no bairro Sertão Verde, cuja escola desabou nos idos de 2008. Por sorte, 24 horas antes de submergir na lama de um morro que se deslocara por pressão das chuvas, o prédio fora interditado pela Defesa Civil, e os 210 alunos entraram em férias forçadas.

Sertão Verde vai ressurgir em outro lugar, num terreno doado pelo Governo do Estado, de 103 mil metros quadrados, em região mais alta, não sujeita às enchentes sazonais. E, além de ficar às margens do Itajaí-Açu, a dois quilômetros da morada original, será vizinho de uma Área de Preservação Permanente (APP), com 100 metros de largura. Vale lembrar que, nas grandes inundações como a de 2008, lugares com matas preservadas resistiram bravamente.

O biólogo Lauro Bacca, de Blumenau, investigou as ocorrências naquele período, e relata: "No Parque Nacional da Serra do Itajaí não houve deslizamentos importantes, apesar de as chuvas terem sido muito intensas por lá. Especialmente no local com mais quantidade de mata primária, como o Parque das Nascentes, nada aconteceu". Mais um ponto a favor do "urbanismo sustentável". Como proclama Lauro Bacca, "temos de agir de acordo com a natureza, não contra ela". Significa, por exemplo, não ocupar margens dos rios nem construir nos declives dos morros, interferências corriqueiras em qualquer ocupação que se faça no Brasil.

O primeiro passo rumo à reconstrução partiu da Fundação Bunge, braço executor das ações de responsabilidade social da multinacional de alimentos, fertilizantes e agronegócios. Vários funcionários da empresa foram vítimas das inundações de 2008.

A Fundação sempre fez, da educação, seu foco principal. Isso a levou, por meio do programa Comunidade Educativa, a apoiar escolas públicas como a Angélica Costa, que desabou no bairro Sertão Verde. Não por coincidência, antes mesmo das enchentes, a entidade ampliou o alcance de sua missão, vinculando-a ao desenvolvimento sustentável, a par da educação e da ciência.

Ao esboçar o que chama de "uma nova história", o presidente da Bunge resgata o mito de Sísifo: repetir as soluções tradicionais, isto é, subir com a pedra até o alto da montanha, equivaleria a per­petuar a tragédia.

Na apresentação do livro Conhecer para Sustentar, Waldrich e o professor Jacques Marcovitch, que preside a Fundação Bunge e foi reitor da Universidade de São Paulo (USP), referem-se aos eventos climáticos como consequência de "algo de muito errado na maneira como interagimos com o meio ambiente".

Eles fazem uma indagação que ressoa muito além da tragédia no Itajaí, naquele novembro de 2008, e ecoa sobre os escombros dos desmoronamentos em Angra dos Reis e Ilha Grande, em janeiro deste ano e sobre as casas inundadas do Jardim Pantanal, na capital paulista. "Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se as regiões afetadas contassem com melhores políticas de ocupação urbana em áreas de risco, melhores sistemas de alerta de catástrofes, melhores programas de ações emergenciais de socorro, melhores formas de disseminar informação e conhecimento?".

O projeto Conhecer para Sustentar: Vale do Itajaí foi deflagrado pela Fundação Bunge tão logo as águas começaram a baixar em Santa Catarina. Além de apropriar o estoque cultural e científico disponível sobre a região do Vale - requisito essencial para encarar o futuro com seus acidentes naturais - a Fundação fez questão de deixar implícita a premissa de sustentabilidade.

"A intenção é reunir e disseminar conhecimentos e vivências de especialistas de diversas áreas - climatologistas, geó­logos, biólogos, urbanistas - e, a partir desse repertório, apresentar soluções que minimizem os impactos sociais, econômicos e ambientais da tragédia do passado, ajudem-nos a lidar com o presente e previnam os acontecimentos futuros", diz o livro Conhecer para sustentar, da jornalista Simone Fonseca e do fotógrafo Lalo de Almeida.

O livro, acompanhado de um DVD, foi editado pela Fundação assim que se aprovou a ideia de um loteamento novo para substituir o que tinha ido a pique em 2008. Também foram realizados seminários para disseminar conhecimento e conquistar apoios. Falta, agora, iniciar as obras da Escola Municipal Angélica Costa, e, claro, do casario do novo bairro, com sua infraestrutura de ruas, calçadas, rede de saneamento. Tudo em bases rigorosamente sustentáveis.

Arquitetura - O projeto tem a assinatura do arquiteto Luiz Eduardo Índio da Costa, gaúcho radicado há muitos anos no Rio. Inicialmente convidado pela Bunge para desenhar a escola destruída, Índio da Costa observou, na primeira visita ao Sertão Verde, que qualquer conceito sustentável sucumbiria naquela área geologicamente instável. Agrônomos e geólogos de Gaspar, consultados, concordaram que grande parte do bairro estava em situação de risco. A Fundação Bunge e a própria Bunge Alimentos conseguiram, então, que o Governo do Estado doasse um terreno de 103 mil metros quadrados, provisoriamente batizado de "Margem Esquerda", por estar naquele lado do Itajaí-Açu. "Urbanismo sustentável é, na verdade, uma resposta ao modelo de cidade moderna baseada no uso do automóvel e moldada pela especulação imobiliária", define o arquiteto.

Como premissas básicas, Índio da Costa cita o "adensamento populacional equilibrado", compatível com o terreno e a infraestrutura disponível. Outro pressuposto é a priorização do pedestre e do ciclista, com correto planejamento dos transportes públicos coletivos. As calçadas serão acessíveis para cadeirantes, com pisos táteis para deficientes visuais. As casas serão equipadas com painéis de energia solar e torres para captação de água de chuva.

O engenheiro químico Renan Lindner mora em Blumenau, onde dirige um escritório de engenharia ambiental. Prestando consultoria ao projeto, aponta três aspectos que contrastam com a arquitetura das grandes metrópoles. "Nos últimos 50 anos, assistiu-se à hegemonia de uma arquitetura que dita o padrão internacional, e não respeita diferenças culturais, ou climáticas, entre re­giões", afirma Lindner. "Por isso, a opção por uma arquitetura mais bioclimática já faz o espaço construído se aproximar mais do espaço natural".

Outro ponto destacado por Lindner é o desenho do loteamento, em que as ruas apontam e convergem para a escola. "Foi uma escolha feliz do Índio da Costa, porque a escola tem espaços que são multipropósitos, como o auditório, por exemplo, em que você pode promover reuniões comunitárias", ressalta o engenheiro. "Além disso, ao olhar a planta do loteamento, a escola assume o papel de ser um referencial do próprio loteamento, um espaço de uso comum. Num país em que você tem como carência maior a educação, esse aspecto tem uma carga simbólica muito grande."

E há o terceiro aspecto, o de permitir uma releitura do modo de vida, ou do modo de ocupação do solo no Vale do Itajaí. "Então, o projeto do Índio associa a escola ao processo pedagógico, à arquitetura bioclimática, à edificação sustentável, causando o mínimo possível de interferências no terreno original", resume Lindner. "É um ponto de inflexão mesmo, o que a Fundação Bunge promove aqui no Estado, algo que revoluciona a forma de pensar - desde que você capitalize isso não apenas como um loteamento para pessoas que foram desalojadas, mas também como uma nova proposta, de valorização da escola, da educação, de uma arquitetura mais próxima das imposições do meio cultural e natural."

Confessadamente empolgado com o projeto do novo bairro, o engenheiro jamais mergulhou tão fundo em uma experiência. Ele cita um exemplo prático: as tubulações de água e energia são aparentes, na escola, para a criança estabelecer a relação de causa e efeito. Ou seja, ao ligar o interruptor, ela percebe que o fio transporta a energia que vai ligar a lâmpada, etc. "Isso é um processo pedagógico. É assim com a criança, tem de ser também com o morador, que deve receber uma capacitação adicional, ser orientado sobre como é morar num lugar que pretende ser mais sustentável que os demais", afirma Lindner.

Outras inovações serão visíveis externamente. O piso da escola ficará 70 centímetros acima do solo, para facilitar a ventilação natural e evitar umidade. Na cobertura, sobre a laje, será plantado um tipo de grama que reduz em até 5°C a temperatura do edifício, e haverá aberturas laterais no teto, para ventilação.

Lindner compara o bairro planejado que vai surgir em Gaspar com os resultados obtidos pela implantação de Brasília, que ele considera "irmã gêmea da indústria automobilística". "O caminho hoje é o oposto, é o de minimizar deslocamentos e aproximar as pessoas."

Raízes - E onde ficam as pessoas, os futuros moradores das casas projetadas por Índio da Costa? Qual será o papel de adultos e crianças nesse novo estilo de viver, supostamente em harmonia com a natureza e o meio ambiente? "Toda a parte paisagística vai ser desenvolvida num Centro de Educação Ambiental, mantido pela Fundação Bunge", explica Claudia Calais, gerente de Responsabilidade Social da empresa. A cobertura verde de todo o traçado desenhado por Índio da Costa será integrada aos espaços comunitários e a educação ambiental vai fazer parte do dia a dia desses moradores. "É uma mudança de comportamento, e o projeto não pode ser nosso, da Bunge, deve ser da municipalidade, para mudar a cultura, dar um novo sentido para a ocupação do solo", defende Cláudia. "Sustentabilidade não pode ser apenas uma palavra da moda."

A ideia manifesta na expressão "Conhecer para Sustentar" permeia toda a evolução do projeto. Por exemplo: no início, pensou-se em captar energia solar para aquecer e iluminar o bairro. Mas depois os executores do projeto descobriram que essa alternativa seria inviável, por causa dos meses frios, e o método ficará restrito ao aquecimento de água. Falou-se em instalar biodigestores para processar esgotos, mas outra solução, ecologicamente superior, foi descoberta: a da "zona de raízes".

Esse, por sinal, é outro exemplo lembrado por Índio da Costa para reforçar o tom pedagógico das construções: "Toda a infraestrutura deve ser conhecida, entendida e preservada pela população", propõe o arquiteto. O tratamento de esgoto por zona de raízes é composto por lagos, instalados no parque que contorna o bairro. A principal característica da zona de raízes é sua fácil manutenção, não necessitando de bombas nem de limpeza diária: a natureza se encarrega disso. O esgoto passa por diversas etapas de filtragem por plantas específicas, resultando em água 95% tratada.

A principal mudança é a aquisição de conhecimento, do entendimento da causa e do efeito das ações. Toda a sinalização do local será feita para que a pessoa perceba que é o esgoto da sua própria casa que está sendo tratado ali. Isso se estende a como organizar o lixo, como levar o filho à escola, como regar o jardim. "Tudo isso se dará de forma natural, mas o que muda é que a informação deve ser levada junto, sempre", diz Índio da Costa.

Nesse mesmo sentido, a escola e a grande área comunitária foram colocadas no centro do bairro, e na convergência das ruas. É o coração do bairro. "É lá, na escola e nos equipamentos públicos, que o processo se dará de forma mais intensa, participativa, educativa", prevê o arquiteto.

Foi mesmo uma pedra de toque colocar a Escola Municipal Angélica Costa como núcleo. Lembrando que a criança hoje influencia a maior parte das decisões familiares, Lindner afirma ser esta a razão de sua aposta no projeto. "Por isso é que eu acredito que o bairro vá andar numa linha mais sustentável", revela.
"Queremos que esse projeto se transforme em uma política pública no futuro, inclusive para desmitificar a crença de que sustentabilidade é coisa para rico, que é coisa cara", diz Cláudia Calais, da Fundação Bunge. "Sustentabilidade é para todos, depende de uma mudança de cultura, de comportamento."

Do estalo inicial ao desenvolvimento do Conhecer para Sustentar, outras entidades se somaram à Fundação, entre elas o Sindicato das Indústrias da Construção Civil de Santa Catarina (Sinduscon-SC), a Companhia de Eletricidade de Santa Catarina (Celesc), a Zênite Engenharia e a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc). Todos apostando na ideia de que há um novo jeito de ocupar as cidades, de que é possível construir espaços ambientalmente integrados.
Para saber se essa aposta vai dar certo, é preciso esperar que os 700 moradores se instalem nas 130 casas do loteamento. Isso deve acontecer em 2011, que promete ser o primeiro ano letivo da nova Escola Municipal Angélica Costa.


Bairro didático

Para o arquiteto e urbanista Luiz Eduardo Índio da Costa, qualquer projeto só tem sentido quando interage com gente, como costuma dizer: "As pessoas devem intervir, opinar, alterar. É preciso construir junto, só assim as coisas acontecem".

Em relação ao bairro que desenhou para o município de Gaspar, ele está otimista. "A nossa experiência mostra que a população demora a se sentir parte do que ainda vai acontecer, principalmente se essas pessoas estão em uma situação de emergência", afirma. No município catarinense, porém, as novas ideias foram rapidamente apropriadas pela população. "O entendimento de que ali o envolvimento pessoal será fundamental para o crescimento equilibrado do bairro já foi conquistado", diz Índio da Costa.

A experiência de recriar o bairro Sertão Verde tem um sentido pedagógico para o arquiteto e ele está confiante de que terá o mesmo significado para a população. "Aprendemos a reconhecer as forças da natureza, respeitar as características do solo, do rio e do clima, o regime de chuvas, as espécies nativas", explica. "Acreditamos que o projeto poderá ser replicado. Queremos criar um bairro didático, para que a população saiba o que pode e o que deve ser feito para evitar situações de risco e melhorar a qualidade de vida."

Um dos princípios básicos do projeto, diz ele, é o respeito à Área de Preservação Permanente do rio Itajaí-Açu, uma faixa de terra protegida que se estende por 100 metros nas margens do rio. "Aprendemos com os técnicos da região que Gaspar recebe água da bacia durante 12 horas, podendo chegar a dias. Levamos isso em conta no projeto para fazer os cálculos de drenagem pluvial e qualificação do solo."


Futura política pública

Os alicerces do novo bairro de Gaspar começarão a ser assentados depois que a Fundação Bunge e o Escritório Índio da Costa entregarem o projeto executivo à Prefeitura Municipal. Esta, por sua vez, divulgará o cronograma de obras, com prazo estimado de um ano para conclusão. Até aqui, todos os custos do projeto correram por conta da Fundação. A partir da entrega do pacote, é a administração de Gaspar que responderá pelo plano, com exceção da escola, atribuição da Fundação.

Será o coroamento de um processo que começou nas reflexões sobre a tragédia de 2008, resultou na edição de um livro e um documentário e desembocou na proposta de erguer uma nova comunidade.

"Queremos que esse projeto se transforme em uma política pública", enfatiza a gerente de Responsabilidade Social da Fundação Bunge, Cláudia Calais.



Conheça nossas outras publicações