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Afogada na sujeira Edição 2

 

Sobra água, mas falta saneamento básico em Manaus
Por Karina Miotto

Até o final da década de 1990, uma parcela dos moradores de Manaus (AM), que contava com o abastecimento, era obrigada a usar água turva e completamente fora dos padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Enquanto isso, grande parte do esgoto era (e ainda é) despejada de qualquer jeito nos igarapés e, conseqüentemente, no rio Negro.

Diante da ineficiência dos sistemas de tratamento, Amazonino Mendes, então governador do Estado, privatizou em 2000 a Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) por um valor perto da casa dos R$ 200 milhões. A responsabilidade do saneamento básico foi parar nas mãos da Suez, uma companhia francesa que passou a administrar a empresa, agora chamada Águas do Amazonas.

Somente no ano passado o poder público se deu conta de que quase nenhuma meta firmada havia sido cumprida. Enquanto a água turva reaparecia transparente e, de acordo com especialistas, livre de coliformes fecais, a rede de esgoto continuava na mesma. "Se em 2000 a água era de qualidade duvidosa, agora não é mais. Em compensação, a empresa não cumpriu 90% das metas de expansão e tratamento de esgoto. Em julho de 2006 foi decretado estado de calamidade pública", afirma Sergio Elias, engenheiro civil e subsecretário da prefeitura.

No quesito tratamento de efluentes, a capital do Amazonas está praticamente parada no tempo. Uma parte dos ínfimos 11% da rede que atualmente existe foi construída pelos ingleses no século 19. Para completar, apenas 4,5% do esgoto é tratado - o resto continua indo parar nos igarapés e de lá para o Rio Negro sem nenhum tipo de tratamento. "Há quase 20 anos, estudos feitos pelo pesquisador Osório Fonseca já apontavam altos níveis de coliformes fecais no rio nos arredores da cidade. Imagina agora!", sinaliza Bruce Fors­berg, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e especialista em ecossistemas aquáticos.
A Amazônia tem uma das maiores disponibilidades hídricas do planeta, e certamente a maior do Brasil. Na Região Norte vive apenas 7% da população brasileira, enquanto 68% da água do país está concentrada lá. A Região Sudeste, em compensação, abriga 46% da população e dispõe de apenas 6% da água. Pouco adianta tanta abundância, porém, quando se vive afogado na sujeira.

O problema da contaminação de mananciais na Amazônia tem sua origem na ocupação desordenada do solo. Mato Grosso, Pará, Acre, Rondônia e Amazonas são os Estados que mais sofrem com conflitos de terra, causados principalmente pela busca de novas ­áreas para criação de gado e plantio de soja. Desmatamentos feitos de forma desordenada destroem as matas ciliares que protegem os cursos d'água. Para piorar, plantações sofrem com pragas e, como geralmente são extensas, a solução mais fácil para os produtores é despejar agrotóxico por via aérea, e esse veneno acaba atingindo os rios.

De acordo com Sergio Bringel, pesquisador do Inpa e membro fundador do Conselho Estadual dos Recursos Hídricos, "os maiores índices de contaminação e de problemas de abastecimento de água e tratamento de esgoto na região amazônica estão em grandes cidades como Manaus (Amazonas), Belém (Pará), Porto Velho (Rondônia), Boa Vista (Roraima) e Rio Branco (Acre)". O pesquisador afirma, ainda, que 90% das cidades na Amazônia contam com abastecimento de água. "Porém, se 50% for tratada, já é muito. Em contrapartida, não existe tratamento de esgoto em 90% dos municípios. Quando há fossa séptica, os resíduos vão para a fossa. Quando não há, vão para o rio mesmo. E de lá os ribeirinhos tiram água para beber, tomar banho...", completa Bringel.

No ritmo da crescente economia de Manaus, que possui o quarto maior PIB do país, o aumento populacional desordenado chega quase a 2 milhões de habitantes e leva muitas famílias a escolher justamente margens de igarapés poluídos até o talo para morar. Vivendo em palafitas, tocam a vida em meio a fezes, lixo e água poluída.  "90% dos igarapés são basicamente xixi e cocô", afirma Forsberg, do Inpa.
No que se refere ao abastecimento, nada menos do que 850 mil pessoas passam por sérios problemas. "Aproximadamente 600 mil só têm água durante uma, duas horas por dia, às vezes três vezes por semana", completa Sergio Elias. Além disso, 250 mil moradores das zonas norte e leste simplesmente não têm abastecimento. A situação caótica quase culminou em rescisão de contrato com a Águas do Amazonas, agora administrada pelo Grupo Vega.
Para resolver a situação, um acordo feito no começo deste ano redefiniu o plano de metas, com obras emergenciais ao custo de R$ 160 milhões - R$ 100 milhões da empresa e o restante da prefeitura. Até junho de 2008, a cidade deverá contar com 450 km de novas redes de distribuição e 11 reservatórios com capacidade para 55 milhões de litros de água, principalmente nas zonas norte e leste, onde também estão sendo construídos 110 poços de 100 metros de profundidade. O objetivo é proporcionar abastecimento para 95% da população.

Em relação ao esgoto, entre as ações previstas e em curso estão a revitalização das estações de tratamento e a construção de 10 mil novas ligações. De acordo com o engenheiro, até o fim do ano estima-se que 5% dos resíduos que não são tratados passem a receber tratamento. Como as obras em relação ao abastecimento de água são vistas como mais urgentes, até o início de 2009 a rede de esgoto não será ampliada e deverá atingir 90% da cidade apenas em 2029.

Enquanto a empresa se desdobra para fazer em 18 meses o que não fez em seis anos, o governo do Estado do Amazonas aposta todas as suas fichas no Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim). "A cidade é visada, é o maior centro urbano do Norte do país, está inserida no meio de uma floresta em pleno século do verde. O governo já entendeu que esgoto e tratamento de água são os cernes da questão", explica o urbanista Roberto Fontes.

O projeto, que começou em 2003 e conta com o apoio da prefeitura municipal de Manaus, da Águas do Amazonas e da Manaus Energia, tem investimentos totais de US$ 200 milhões (US$ 140 milhões financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento). Entre outras coisas, deverá recuperar as margens dos igarapés e reassentar famílias que lá vivem em condição irregular. "Essa obra deveria ter começado há mais de 30 anos, o governo não precisava ter deixado chegar a essa situação. E tudo o que vejo até agora são modificações no paisagismo", afirma Sergio Bringel, do Conselho Estadual de Recursos Hídricos. O prazo para a execução do Prosamim é de 8 anos.
Vindas do governo ou da prefeitura, a população espera que, desta vez, todas as metas sejam cumpridas. Manaus tem urgência.



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