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Falta água na Mesopotâmia Edição 2

 

Apesar dos grandes rios e das reservas no subsolo, infra-estrutura para uso da àgua é precária
Por Ali Al-Fadhily

Pelo Iraque passam dois dos maiores rios do Oriente Médio, mas isso parece não ser suficiente para atender às necessidades de água da sociedade. A maior parte da população vive próxima aos rios Eufrates e Tigre, e muitos de seus afluentes. Os cursos fluviais juntam-se na cidade de Basra, onde formam a bacia de Shat al-Arab. Esse país também tem recursos hídricos subterrâneos de qualidade muito boa. Quase um quinto do território é bom para cultivo. "A água que temos no Iraque é mais do que suficiente para nossas necessidades", disse o engenheiro Adil Mahmood, responsável pela Autoridade de Irrigação. "Na verdade, com um bom planejamento, podemos exportá-la aos países vizinhos, como Arábia Saudita, Jordânia e Kuwait, que trabalham com a escassez desse recurso", acrescentou.

Entretanto, os agricultores têm dificuldades para irrigar suas terras. Há graves carências energéticas para fazer funcionar as bombas e falta de combustível para os geradores. "A água existe e os rios não secaram, mas o problema é como a levamos até nossas moribundas plantações", disse Jabbar Ahmed, agricultor de Latifiya, ao sul de Bagdá. "É uma vergonha que nós, nossos animais e nossas plantas morramos de sede em um país com esses dois rios gigantescos", disse indignado.

Agora o Iraque deve importar grande parte dos produtos agrícolas que consome em virtude de falta de água para irrigação. "Antes, vendia 50 toneladas de tomates por ano, mas agora vou ao mercado comprar o que consumo", disse à IPS Numan Majid, da região próxima à cidade de Abu Ghraib, oeste da capital iraquiana "Procurei ignorar a situação, mas foi em vão. Não se pode plantar no Iraque, menos ainda com a escassez de água existente". Alguns iraquianos falam da época em que essa região ensinava ao mundo como utilizar esse recurso vital.

"Os sumérios eram mais avançados do que somos agora", disse Mahmood Shakir, historiador da Universidade de Bagdá. "Há mais de sete mil anos, os sumérios construí­ram canais para irrigar suas plantações de trigo e o rei da Babilônia, Nabucodonosor, a canalizou para seus grandes Jardins Suspensos, a ponto de se converterem em uma das sete maravilhas do mundo". Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, o Iraque possui 438.320 quilômetros quadrados e 924 quilômetros de cursos fluviais. O país apresenta a topografia de uma bacia entre o Tigre e o Eufrates. A região da Mesopotâmia, que inclui o atual território iraquiano, literalmente significa terra entre dois rios.

Mas agora a história desses dois rios é outra. "As autoridades não utilizam esse presente do céu de forma adequada. Primeiro pelas sanções da ONU e depois pelo caos que se seguiu à ocupação norte-americana", depois da invasão de março de 2003, disse Jabbar Ahmed. A companhia Bechtel, dos Estados Unidos, que tem estreitos vínculos com o governo do presidente George W. Bush, estava encarregada da reconstrução da infra-estrutura elétrica e de água no país. Mas não fez quase nada. Agora, cada lar iraquiano tem, em média, duas horas de eletricidade por dia. Aproximadamente 70% da população não tem acesso a água potável e apenas 19% conta com saneamento, segundo a Organização Mundial da Saúde.



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